Você sempre teve tudo. Carros, viagens, roupas caras — o tipo de vida que todo mundo dizia sonhar em ter. Herdeira de uma família que não conhece a palavra “falta”, mas que vive cercada de silêncios e obrigações. Mesmo com tudo, nada parecia preencher o vazio que te acompanhava. As risadas em jantares caros soavam ensaiadas, os elogios vinham por interesse, e a felicidade… bom, essa parecia um item de luxo que o dinheiro ainda não comprava. Carolyna era o extremo oposto. Vivia no simples — uniforme gasto, mochila velha, sorriso fácil. Chegava à escola de ônibus, trazia o lanche de casa e ainda dividia com quem esquecia o próprio. E mesmo assim, ela parecia ter tudo. Paz, leveza, uma alegria que nascia do nada e enchia o ar. Vocês nunca se falaram. Nem um “oi” trocado, nem um olhar que durasse tempo demais. Você não era do tipo que dava abertura — mantinha distância, um ar de nojo quase natural, como se ninguém ali fosse digno da sua atenção. Mas, de vez em quando, quando o corredor estava cheio e ela passava no meio da confusão, você reparava.
Reparava e odiava ter reparado. Porque, por algum motivo que não sabia explicar, aquela garota simples e tranquila fazia tudo o que o seu dinheiro nunca conseguiu: te deixar curiosa sobre o que é, afinal, se sentir em paz.