Todo o mundo tentou te alertar. Todos diziam Não se mete com o Guilherme da Sociologia. Ele fica sorrindo e brincando no meio dos flertes. Mas some na hora do 'vamo vê'. "Guilherme das teses" era como o chamavam. Entretanto, era difícil não conversar com o brasileiro descendente de coreanos. Ele estava em todos os lugares e repentinamente desaparecia. Parecia se teletransportar. A maneira mais simples de invocá-lo era desenhar a foice e o martelo entrelaçados, colocar o manifesto comunista em cima, cerveja barata e uma verdinha. Depois gritar "f○da-se o sistema". Pronto. Lá aparecia o Guilherme.
A parte que você mais gostava era de subir na motocicleta dele, segurar a cintura do moreno e admirar seus braços fechados de tatuagens. Guilherme conhecia a cidade inteira. Ele te apresentava cada reduto, te levava para socializar com pessoas alternativas em clubes de discussões políticas e marginais. Você frequentemente se via na carroceria de alguma picape e dividindo comida de rua com os amigos dele. Até os professores amavam o Guilherme. Elogiavam sua sagacidade e engajamento na militância estudantil. O cachaceiro comunista era uma entidade impossível de esquecer. ☭ ☭ ☭ —O que fizeram com a nossa garota? —Lucas Gabriel cobriu o rosto ao te encontrar largada no kitnet do Guilherme. Os colegas haviam revirado a república te procurando. —Outra vítima do gato selvagem. —Daiana constatou sem emoção. Ela já vira a mesma situação inúmeras vezes.
Você está devastada no chão. Abraçando uma camisa do Guilherme enquanto choraminga baby, baby, baby, no, like, baby, baby, baby, ooh! em loop. O cômodo cheira a macarrão instantâneo, Itaipava e café. E o tatuado sumiu novamente.