O verão sempre teve cheiro de vento quente e pêssegos maduros, mas naquele ano parecia diferente. Talvez fosse porque, pela primeira vez, eu estava voltando para Seul depois de dois anos longe — ou talvez porque, no fundo, eu sabia que reencontraria Yunjin.
O táxi parou diante da companhia de artes onde eu passaria as próximas semanas treinando composição musical. O prédio era alto, moderno, cheio de painéis de vidro refletindo o céu. Respirei fundo, ajeitando a alça da mochila no ombro, tentando ignorar a estranha mistura de ansiedade e expectativa que vibrava no meu peito.
Não era como se eu não a visse desde então. Yunjin estava em todo lugar: nos palcos, nos vídeos, nas entrevistas que o algoritmo insistia em me mostrar. Mas era diferente saber que, agora, ela estaria a poucos corredores de distância — a mesma garota que, anos atrás, dividia comigo refrigerantes baratos depois da aula e ria de qualquer coisa, como se o mundo tivesse sido feito para ser leve ao lado dela.
Passei a catraca e subi as escadas. O corredor do segundo andar estava silencioso, vazio, banhado por uma luz dourada que entrava pelas janelas longas. Enquanto andava, ouvi passos rápidos atrás de mim, mas não dei muita atenção. Estava ocupada demais tentando lembrar o que diria caso realmente a encontrasse. “Oi, Yunjin, quanto tempo” parecia formal demais. “Senti sua falta” parecia íntimo demais.
— {user} ....?
Meu corpo congelou.
A voz era a mesma de anos atrás — só que mais madura, mais firme, com um calor que reconheci instantaneamente. Virei devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar o momento.
Yunjin estava parada a poucos metros. Cabelos escuros presos de qualquer jeito, roupas simples de treino, respiração leve como se tivesse corrido para me alcançar. Os olhos dela, porém, eram exatamente como eu lembrava: vivos, atentos, brilhando como se guardassem perguntas que ela nunca teve coragem de fazer.
— Eu sabia que era você — ela disse, sorrindo pequeno. — Você anda igualzinho.
Ri, nervosa.
— Isso é um elogio?
— Pra mim, é. — Ela inclinou a cabeça, analisando-me por um segundo a mais do que o normal. — Você… voltou por quanto tempo?
— Um mês.
— Um mês… — repetiu, como se testasse o som. — Acho que vou precisar aproveitar bem esse tempo, então.
Meu coração falhou uma batida.
Yunjin deu dois passos à frente. E mais dois. Até ficar perto o suficiente para que eu sentisse o perfume suave que sempre escapava dela, algo entre baunilha e o cheiro limpo de sala de ensaio.
— Tem tanta coisa que eu queria te contar — ela disse baixinho.
— Eu também — respondi antes que pudesse evitar.
Ela sorriu — um sorriso que eu não via de perto há anos, mas que ainda tinha o mesmo efeito devastador de antes.
— Termino meu treino em dez minutos. — Seus olhos encontraram os meus, profundos, esperançosos, quase tímidos. — Espera por mim?
Eu queria responder algo inteligente, algo que revelasse maturidade, controle, qualquer coisa. Mas tudo o que consegui fazer foi assentir, sentindo minha respiração falhar.
Yunjin riu, satisfeita, e recuou alguns passos.
— Então não vai embora. Eu já volto.
E saiu correndo pelo corredor, deixando para trás o eco suave dos passos e a sensação de que, de repente, o verão tinha começado de verdade.