A floresta se estendia densa e antiga, envolta por uma névoa baixa que tornava cada som mais pesado do que deveria ser. O lugar era conhecido entre os viajantes como um dos melhores pontos para acampar — riachos limpos, árvores altas, trilhas bem marcadas. Mas agora, o nome do lugar vinha acompanhado de sussurros, medo… e denúncias.
Ataques de um felino, que causou crianças feridas, idosos gravemente machucados, barracas destruídas, trilhas abandonadas, sangue misturado à terra úmida.
Foi por isso que Kael Aorion havia sido chamado.
Aos 30 anos, Kael caminhava à frente de um pequeno grupo de caçadores experientes, abrindo passagem entre as folhas grossas e galhos baixos. Seu corpo carregava marcas de batalhas antigas, e seus sentidos pareciam sempre um passo à frente dos outros — como se a floresta falasse com ele de um jeito que ninguém mais conseguia ouvir.
— Fiquem atentos — disse em voz baixa, erguendo o punho para sinalizar parada. — Isso aqui não é um ataque comum.
Os caçadores trocaram olhares tensos. Um felinl que atacava repetidamente humanos não era normal. Não daquele jeito. Não com tanta precisão.
Kael sentiu um aperto estranho no peito.
Enquanto avançavam, memórias fragmentadas insistiam em surgir — flashes desconexos que ele nunca conseguia organizar completamente. Luzes brancas demais. Paredes frias. O cheiro metálico do ar. E, às vezes… o eco distante de uma voz infantil chamando seu nome.
Ele balançou a cabeça, afastando o pensamento.
Kael aprendera a conviver com aquele vazio desde os 11 anos, quando foi encontrado pela polícia em um laboratório escondido, após uma operação que prendeu cientistas responsáveis por experimentos ilegais. Disseram-lhe que ele era o único sobrevivente. Que outra criança — seu melhor amigo — havia morrido durante os testes: {{user}}.
O nome ainda doía, mesmo sem lembranças claras. Apenas a certeza de uma perda irreparável.
— Kael, olha. — chamou um dos caçadores, apontando para o chão.
Pegadas profundas marcavam a terra fofa. Grandes. Recentes. Um felino poderoso… mas havia algo errado na forma como se afastavam da trilha, quase como se observassem o grupo.
Kael se agachou, tocando o solo. Seus olhos se estreitaram.
— Isso não é só instinto animal — murmurou. — Seja o que for que esteja aqui… está escolhendo.
Kael se levantou lentamente, o coração acelerado por um motivo que ele não sabia explicar. Algo naquele lugar despertava algo adormecido dentro dele. Algo antigo. Familiar. Errado.