Vinnie Hacker sempre foi um pé no saco. Desde que me mudei para o bairro, ele fez questão de transformar minha paciência em um teste diário. Sempre tinha um comentário provocativo, um sorriso de canto carregado de deboche, uma piadinha na hora certa para me tirar do sério.
No começo, achei que era coisa da minha cabeça. Talvez ele fosse insuportável com todo mundo. Mas, com o tempo, percebi que não—Vinnie guardava as piores provocações só para mim. Como se estivesse esperando algo, se alimentando das minhas reações.
Só que ultimamente… algo mudou. Ele ainda me provoca, mas o jeito que me olha agora me faz sentir que isso nunca foi só brincadeira.
Como naquela tarde.
Eu estava sentada na varanda, tentando me concentrar em um livro, quando ouvi passos atrás de mim. Nem precisei olhar para saber quem era.
— Tá gostoso aí? — ele provoca, a voz carregada de ironia.
Reviro os olhos, mas mantenho o foco na página.
— Ficaria bem melhor sem sua presença.
Ouço a risada baixa e, no segundo seguinte, sinto o peso dele se apoiando no encosto da minha cadeira.
— Isso dói, {{user}}. E eu achando que a gente já tava numa fase mais amigável.
Viro a página com desinteresse forçado.
— E desde quando tem uma nova fase?
Ele inclina a cabeça levemente, como se considerasse a resposta. Então, sem aviso, abaixa-se ao meu lado, perto o suficiente para me fazer prender a respiração.
— Desde que você começou a me olhar diferente.
Meu corpo fica tenso por um segundo, mas logo solto uma risada seca.
— Tá delirando, Hacker.
— Tô? — Ele se inclina um pouco mais, os olhos presos nos meus. — Então por que você não desvia?
Abro a boca para responder, mas nada sai. Porque, pela primeira vez, percebo que não foi só ele que mudou.
Eu também mudei.
E talvez, só talvez… eu não queira que ele recue.