O salão estava excessivamente iluminado — lustres de cristal, bandeiras discretamente incorporadas à decoração e taças que nunca ficavam vazias por mais de alguns segundos. A vitória da Argentina na Copa havia virado desculpa oficial para uma festa que reunia todos os países, vestidos com um nível de formalidade que beirava o exagero.
Smoking, vestidos longos, joias que diziam mais sobre poder do que sobre gosto.
Croácia estava encostado próximo a uma coluna de mármore, taça de espumante na mão, blazer perfeitamente ajustado ao corpo. Não precisava se mover muito para ser notado — as pessoas orbitavam ao redor dele quase por reflexo.
— Não me entenda mal — dizia ele, com um sorriso preguiçoso —, eu adoro festas internacionais. Mas sempre tem alguém que confunde “traje formal” com “fantasia temática”.
Ele inclinou levemente a cabeça na direção de um grupo próximo à mesa de canapés.
— Veja ali — murmurou. — Estados Unidos usando algo caro demais pra ainda parecer inseguro. Um clássico. Deu um gole lento. — E Reino Unido… sério, até quando vai insistir nesse ar de solenidade eterna? Estamos comemorando futebol, não assinando um tratado do século XIX.
A Itália, ao lado dele, riu baixo, ajustando a gravata.
— Você está impossível hoje.
— Hoje? — Croácia arqueou uma sobrancelha. — Eu estou coerente. O ambiente é que insiste em ser caótico.
Ele deixou o olhar passear pelo salão, avaliando vestidos, posturas, risadas altas demais. Brasil dançava perto da banda, completamente à vontade, enquanto Alemanha conversava com Suíça como se aquilo fosse uma conferência econômica disfarçada de festa.
— Pelo menos a Argentina tem motivo — continuou Croácia. — Ganhar a Copa dá esse direito. O resto… só está aproveitando o champanhe grátis.
Ele sorriu de canto, satisfeito com a própria observação, quando algo — ou alguém — puxou sua atenção de forma quase física.
No outro extremo do salão, perto das janelas altas, Franças estava apoiado em uma mesa, rindo alto demais, cercado por gente demais. O terno claro contrastava com o ambiente escuro; a postura era relaxada, confiante, perigosamente confortável em ser o centro das atenções.
Nada de novo.
Croácia desviou o olhar por um segundo, como se aquilo não importasse. Depois voltou.
— Falando em gente que nunca perde a pose… — comentou, agora num tom mais baixo, quase distraído.
Itália seguiu o olhar dele e sorriu, compreendendo rápido demais.
— Ah. Ele.
Croácia soltou um riso curto, sem humor.
— Impressionante. Uma festa formal, líderes do mundo inteiro presentes… e ainda assim o Franças consegue transformar isso num flerte coletivo. É quase um talento diplomático.
Franças gesticulava enquanto falava, tocava o braço de alguém ao rir, inclinava-se para sussurrar algo no ouvido de outra pessoa. Natural. Fácil. Como se não houvesse consequência nenhuma em ser assim.
Croácia apertou levemente a taça.
— Aposto que em dez minutos ele troca de grupo — continuou. — Não por tédio, mas por esporte.
— Você está observando bastante — provocou Itália.
— Estou analisando o ambiente — respondeu rápido demais. — Faz parte.
Mas seus olhos não desgrudavam.
Houve um momento específico — pequeno, quase irrelevante — em que Franças levantou o olhar por cima do ombro, como se sentisse algo. O sorriso ainda estava lá, mas diminuiu um grau. Os olhos cruzaram o salão.
Encontraram Croácia.
Nada dramático. Nenhum gesto explícito. Só um segundo a mais do que o necessário. Um reconhecimento silencioso no meio do barulho, da música, das comemorações.
Franças ergueu a taça em um cumprimento casual, desses que poderiam significar qualquer coisa.
Croácia demorou um instante antes de responder. Depois inclinou a cabeça, um meio-sorriso surgindo — automático, treinado, perigoso.
— Viu? — murmurou, desviando o olhar primeiro. — Incorrigível.
Mas agora, todas as outras pessoas no salão tinham perdido um pouco da importância. As críticas cessaram—Sua atenção ficou inteira em uma pessoa. Franças