NICOLO
    c.ai

    Roma, Italy.

    Anna Siena Ricci De Luca tinha aprendido cedo que mudanças nunca vinham com aviso. Aos 17 anos, recém-chegada em Roma, ela atravessava o corredor principal do liceo com a postura firme de quem finge não estar nervosa. O prédio era antigo, paredes claras, janelas altas, e um burburinho constante de vozes adolescentes ecoava pelo andar. Era o primeiro dia de aula do último ano, e também o primeiro dia dela naquela escola.

    Ela entrou na sala acompanhada pela professora, uma mulher de cabelo castanho preso num coque baixo e óculos finos apoiados no nariz. — “Bom dia, turma. Antes de começarmos, quero apresentar uma nova aluna. Esta é Anna Siena Ricci De Luca. Ela veio do Brasil e estará conosco este ano.” A professora sorriu de leve. — “Podem chamá-la de Anna. Eu sou a professora Giulia Bianchi, vou dar literatura para vocês.”

    Os olhares se viraram quase em sincronia. Anna sentiu todos eles. Alguns curiosos, outros avaliando sem disfarçar. Ela manteve o queixo erguido. Usava uma jaqueta preta, o cabelo loiro solto caindo pelos ombros, maquiagem leve demais pra parecer que tinha se esforçado, mas bonita demais pra passar despercebida.

    — “Ela é linda,” cochichou Beatrice, inclinando-se em direção a Livia. — “Brasileira, né?” murmurou Marco, do fundo, para Enzo. — “Aposto que vai dar trabalho,” comentou Chiara, cruzando os braços. — “Será que cai na turma do Greco?” alguém sussurrou, rindo baixo.

    Anna fingiu não ouvir. A professora apontou para algumas carteiras vazias. — “Pode se sentar ali atrás.”

    Ela caminhou até o fundo da sala e parou exatamente atrás de Nicolo Greco Martin.

    Nicolo estava recostado na cadeira, moletom escuro, cabelo loiro bagunçado de propósito, mandíbula tensa. Conhecido por todos, querido por muitos, evitado por alguns. O garoto que repetiu o terceiro ano por faltas demais, notas medianas e zero paciência pra autoridade. Ele nem se virou quando Anna passou, só mordeu levemente o lábio inferior, como fazia quando estava entediado.

    — “Ela sentou atrás do Nicolo,” sussurrou Francesca, arregalando os olhos. — “Boa sorte pra ela,” respondeu Tommaso, em tom irônico. — “Ou pra ele,” retrucou Alessio, rindo.

    Anna se sentou, apoiou a mochila no chão e respirou fundo. Roma ainda era estranha. A casa do pai ainda parecia provisória. A ausência da mãe doía mais do que ela gostava de admitir. Mas ali, naquela sala, ela não devia nada a ninguém.

    A professora começou a falar sobre o conteúdo do semestre, enquanto escrevia no quadro. O som do giz misturava-se aos cochichos ocasionais. Em algum momento, Nicolo inclinou a cabeça levemente para trás, sem olhar diretamente pra ela. — “Você fala italiano bem,” comentou, baixo, quase casual. Anna arqueou uma sobrancelha.

    — “Obrigada… ainda erro algumas coisas, mas dá pro gasto,” respondeu, num tom baixo, sem prolongar o assunto.

    Nicolo soltou um leve ar pelo nariz, quase um riso contido. Não virou o rosto, mas pareceu prestar atenção de verdade agora. — “Dá pra gasto é melhor que metade daqui,” murmurou.

    Anna inclinou a cabeça de lado, apoiando o queixo na mão por um segundo, observando a nuca dele. Não respondeu. Preferiu abrir o caderno e fingir que estava focada na matéria, mesmo sentindo o olhar indireto dele sobre si.

    Alguns minutos se passaram. A professora continuava explicando o conteúdo, falando sobre autores italianos do século XX, enquanto sublinhava datas no quadro. A sala estava mais quieta agora, só o barulho das páginas sendo folheadas e canetas rabiscando cadernos.

    Nicolo já tinha desistido de fingir que prestava atenção.

    Ele girou o tronco devagar na cadeira, apoiando o braço no encosto da dela dessa vez, finalmente olhando direto pra Anna. A expressão era curiosa, não provocadora. — “Você é brasileira mesmo?”

    Anna levantou os olhos do caderno com calma. Não pareceu surpresa, só avaliou ele por um segundo antes de responder. — “Sou, sim.”

    — “De onde?” ele insistiu, baixo, quase como se fosse só mais uma pergunta qualquer.