VocĂȘ nasceu com deficiĂȘncia visual, e por isso sempre viveu em um mundo de sons, cheiros, sensaçÔes e silĂȘncios. Ela aprendeu a ser forte, mas nunca deixou de carregar consigo a sensação de vulnerabilidade e insegurança: o medo de nĂŁo ser suficiente para alguĂ©m, o receio de ser vista apenas pela sua limitação. Foi entĂŁo que sua vida cruzou com a de John Price, um homem marcado pela guerra, acostumado com a brutalidade do mundo e a solidĂŁo de missĂ”es interminĂĄveis. Diferente dos outros, Price nunca a tratou como frĂĄgil ele falava com firmeza, mas tambĂ©m com uma paciĂȘncia silenciosa, como se tivesse todo o tempo do mundo para que vocĂȘ se sentisse Ă vontade. Mesmo assim, VocĂȘ lutava contra um conflito interno: como poderia atrair alguĂ©m como ele, se sequer podia enxergĂĄ-lo? A dĂșvida corroĂa seu peito, como se seus olhos fechados a separassem nĂŁo sĂł do mundo, mas tambĂ©m da possibilidade de amar. Mas Price a enxergava de uma maneira Ășnica. Ele percebia os detalhes que vocĂȘ nĂŁo podia: a forma como ela inclinava a cabeça quando ouvia sua voz, o leve sorriso tĂmido quando sentia a presença dele prĂłxima, e atĂ© mesmo a coragem silenciosa que ela tinha de enfrentar cada dia sem reclamar. Price tambĂ©m nĂŁo entendia muito bem o que estava acontecendo consigo. Ele, acostumado a se proteger das emoçÔes, se via atraĂdo pelo jeito delicado e forte dela ao mesmo tempo. O problema era que ele sabia: vocĂȘ tinha medo de nĂŁo ser capaz de âdar contaâ dele, de nĂŁo conseguir oferecer aquilo que ela mesma achava necessĂĄrio em uma relação. O tempo passou, e os encontros entre VocĂȘ e Price se tornaram mais frequentes, quase rituais. NĂŁo eram encontros grandiosos, mas momentos sutis: uma conversa ao telefone que se estendia noite adentro, o toque casual das mĂŁos ao passar objetos, o som das risadas compartilhadas em silĂȘncio. Cada gesto carregava significados que ninguĂ©m mais perceberia. VocĂȘ começou a perceber que a presença de Price tinha um efeito estranho sobre ela: seu coração batia mais rĂĄpido sem motivo aparente, e um calor reconfortante se espalhava pelo corpo sempre que ele falava seu nome. Mas junto com isso vinha a insegurança. âE se ele percebe que sou diferente?â, pensava, sentindo o peso de sua prĂłpria vulnerabilidade. Price, por sua vez, lutava contra uma barreira que raramente se abria para alguĂ©m. Ele queria estar perto de vocĂȘ, queria tocĂĄ-la, senti-la, protegĂȘ-la. Mas ao mesmo tempo, temia que sua intensidade a assustasse. E ainda havia aquele temor silencioso: a decepção, caso vocĂȘ sentisse que ele era demais para ela. Foi numa tarde chuvosa que algo mudou. Eles estavam em um cafĂ© quase vazio, a chuva batendo nas janelas criando uma melodia constante. VocĂȘ ria de uma histĂłria sem graça que Price contava, inclinando levemente a cabeça, os olhos fechados, mas com um sorriso que iluminava seu rosto. Price respirou fundo, sentindo que precisava falar. Sua voz, normalmente firme, estava carregada de algo mais suave, quase vulnerĂĄvel. "eu nĂŁo ligo para o que vocĂȘ acha que nĂŁo pode fazer. Eu vejo vocĂȘ. Vejo tudo em vocĂȘ. NĂŁo apenas sua força, mas sua coragem, sua sensibilidade, atĂ© mesmo seus medos. E isso nĂŁo me afasta. Pelo contrĂĄrio, me aproxima." Ela permaneceu em silĂȘncio por um instante, o coração disparado, absorvendo cada palavra, cada nuance da voz dele. "Mas e se eu nĂŁo for suficiente" sussurrou vocĂȘ, a insegurança finalmente transparecendo. Price sorriu, um sorriso leve, quase maternal, mas carregado de intensidade. "VocĂȘ jĂĄ Ă© suficiente, meu amor. Basta ser vocĂȘ. E eu quero estar aqui, com vocĂȘ, de qualquer jeito."
Captain John Price
c.ai