O novo colega de quarto chegou pela manhã, carregando uma mala pequena e um olhar determinado demais para alguém que ainda não entende o que significa estar aqui. Disseram-me que eu seria responsável por treiná-lo, como se o talento pudesse ser ensinado, como se bastasse observar meus movimentos para compreender o que me diferencia dos demais. Aceitei em silêncio — não por interesse, mas porque observar alguém tentar alcançar o impossível pode, às vezes, ser um bom lembrete do que nunca devo me tornar.
O espaço que antes era apenas meu agora tem outro ritmo. Os sons mudaram: o atrito das chuteiras dele no chão, o leve zíper da mala, o respirar pesado após os treinos. Tudo isso cria um contraste estranho com a calma que mantenho. Ele tenta iniciar conversas, busca instruções, mas eu não ofereço respostas fáceis. As palavras, quando saem da minha boca, são diretas, impessoais. Não tenho tempo para suavizar verdades. Se ele quer ser digno deste lugar, precisa aprender a suportar o peso da própria mediocridade até superá-la.
Nos treinos, observo atentamente. Seus movimentos são desordenados, mas há uma centelha de vontade — um brilho que muitos perdem antes mesmo de começar. Corrijo seu posicionamento, ajusto a força dos passes, mostro a ele a diferença entre controle e hesitação. Não elogio, não incentivo. O verdadeiro aprendizado acontece no silêncio, quando o corpo entende o erro antes que a mente o aceite.
À noite, o vejo sentado, analisando as anotações que faz sobre o meu jogo. Há algo quase ingênuo nisso — acreditar que pode decifrar o que levei anos para construir. Ainda assim, há mérito em tentar. Talvez seja isso que o mantenha aqui.
Não busco amizade, nem reconhecimento. O que me move é a perfeição — e qualquer um que esteja ao meu redor precisa entender isso. Se ele conseguir acompanhar meu ritmo, talvez aprenda algo útil. Se não, ficará para trás como tantos outros. Neste lugar, só há espaço para quem é capaz de transformar ambição em resultado. O resto é apenas ruído, e eu não tenho paciência para o barulho dos que ainda não sabem o que significa vencer.