- — “Você pisou no palco errado, protagonista de aluguel.”
Morvendell sempre foi uma cidade doente. Um tumor cinzento cravado no coração do mundo. As ruas pareciam suspirar sofrimento, as janelas quebradas observavam como olhos cansados e cada beco escondia um segredo pronto para devorar quem ousasse encarar de frente. No centro de tudo isso, a prefeitura: um monumento decadente onde decisões podres germinavam como fungos sob a pele de ferro e mármore.
Kanato era o filho que a cidade invejava. Adotado pelo antigo prefeito, Artur Vellmont, criado como herdeiro, braço direito e confidente. Um jovem culto, calmo, que caminhava como se ouvisse uma música que os outros não podiam escutar. Muitos diziam que ele seria o próximo prefeito. Que ele transformaria Morvendell.
Mas a transformação veio por outro caminho.
Quando Vellmont foi assassinado durante uma reunião a portas fechadas — seu corpo encontrado com as mãos cruzadas e um sorriso esculpido na boca morta — Kanato desapareceu. E com ele, vinte outras almas foram arrancadas do mundo naquela mesma noite, todas presentes na sala do conselho. Um banho de sangue. Preciso, ritualístico. Nenhuma câmera. Nenhuma impressão. Apenas sangue, e uma frase escrita com batom no espelho do banheiro dos funcionários: “O espetáculo vai começar.”
Desde então, Kanato virou um fantasma. Ninguém soube dizer onde se escondeu. Nenhum som, nenhuma pista. Só histórias sussurradas nas ruas. Crianças cresciam ouvindo que, se ficassem acordadas até tarde, Kanato viria ensinar a verdade com uma faca em punho.
E foi nessa cidade apodrecida que eu fui contratado. Não com promessas, mas com sangue. O contrato dizia tudo que eu precisava saber: Encontre Kanato. Elimine-o. Não pergunte por quê. Quando se vive como eu, você aprende a não fazer perguntas. Ainda assim, por dentro, eu sabia: isso não era apenas um trabalho. Era um aviso. Quem quer que estivesse pagando, estava desesperado.
Segui as pistas como um cão velho farejando o cheiro da morte. Foram meses. Corpos. Armadilhas. Jogos. Até que cheguei ao Teatro Municipal de Morvendell — fechado há anos, abandonado depois de um incêndio parcial, mas ainda em pé como um túmulo teimoso.
Entrei pelas portas pesadas, empurradas com esforço. O som do vento pelas frestas era como um lamento. O cheiro de mofo e fuligem queimava minhas narinas. A sala estava vazia, escura, exceto por um único refletor que iluminava o palco.
No centro do palco... um corpo. Amarrado numa cadeira de madeira. Roupas sujas. Cabeça baixa. Parecia morto. Dei dois passos, atento a cada som... e então, a música começou.
Um piano. Suave, elegante. Não melancólico — algo diferente. Como se o som estivesse zombando de mim.
Ele estava ali. Kanato. Sentado ao piano, com as costas retas, os dedos deslizando pelas teclas como se o mundo não estivesse em ruínas. Um vulto sereno em meio ao caos. Assim que meus olhos o reconheceram, ele parou, ergueu o olhar... e sorriu.
Sem dizer uma palavra, ele pegou uma pistola deixada ao lado do banco do piano e atirou direto no refletor acima de mim.
O estalo foi seco, a lâmpada explodiu com um chiado, e a escuridão caiu como um manto denso sobre o teatro.
E então, a voz dele ecoou na escuridão, fria, afiada como uma lâmina mergulhada em veneno:
A música cessou. O silêncio absoluto foi quebrado por uma risada baixa, cortante, como se cada nota zombasse de mim por ter acreditado que eu estava no controle.
E então, sua voz surgiu novamente, mais próxima, mais íntima, quase sussurrando no meu ouvido — como se ele estivesse em todos os cantos ao mesmo tempo:
— “Eles fingem pureza, mas comem cadáveres no almoço. Eu vi o que escondem atrás das cortinas, ouvi os gritos abafados nas paredes daquela maldita prefeitura. Me criaram pra obedecer, pra ser ferramenta. Eles mataram meu pai... e me ensinaram a matar com um sorriso.”
— “Aceita... você é só um cachorro que pagaram com sangue pra me matar. E o próximo... vai ser o responsável que te contratou...Acho melhor você ir vê-lo.”