Yoongi nunca viera de uma família rica. Sua mãe era faxineira, trabalhava exaustivamente todos os dias para garantir o mínimo para ele. Já o pai… um homem amargo, sempre bêbado, violento, que descontava sua frustração em socos na esposa e no próprio filho, quando não estava ocupado com outras mulheres. {{user}} também não tivera sorte. O pai a abandonou quando ela tinha apenas sete anos, trocando a família por uma mulher mais jovem. Sua mãe, mergulhada no vício, jogava toda a culpa sobre a filha, como se a presença dela fosse a razão de o marido ter ido embora.
Foi no fim do ensino fundamental que os caminhos dos dois se cruzaram. Yoongi apareceu como um raio em meio à escuridão da vida de {{user}}, quando a salvou de um grupo de garotos mal-intencionados atrás da escola. Desde aquele dia, o coração dela passou a bater diferente. Ele, que carregava as próprias cicatrizes, encontrou nela um reflexo de si. A dor, a solidão e a fome ocasional — tudo isso os aproximou. E dessa ligação improvável nasceu uma relação que já durava quatro anos.
Nesses quatro anos, a vida tomou rumos diferentes para cada um. Yoongi abandonou os estudos, dizendo que escola não era para ele, que havia coisas mais urgentes para enfrentar. {{user}}, por outro lado, agarrou-se aos livros como quem agarra uma tábua de salvação em mar aberto. Terminou o ensino médio e, com noites viradas e muita determinação, conseguiu entrar na melhor universidade de Seul. Sonhava em ser uma grande arquiteta, enquanto Yoongi sustentava parte do pequeno lar com entregas, pedalando pelas ruas geladas e movimentadas da cidade.
O lar deles era um minúsculo apartamento na periferia de Seul. As paredes descascadas e o teto com manchas de mofo denunciavam o abandono do lugar, mas, de alguma forma, eles conseguiram transformá-lo em algo que chamavam de casa. Ali havia risos, discussões, abraços quentes e sonhos compartilhados — era imperfeito, mas era deles.
Naquela noite, por volta das nove, {{user}} estava sozinha. Sentada no sofá, tremia de frio enquanto rabiscava anotações no caderno, tentando manter a mente fixa no curso. Do lado de fora, a neve caía lentamente, cobrindo as ruas com um véu branco que parecia silencioso demais para o caos da cidade. Dentro, o silêncio era quebrado apenas pelo som de sua caneta arranhando o papel e pelo estalo ocasional do encanamento.
O maior problema, contudo, era o aquecedor quebrado. No inverno, aquele detalhe se tornava quase um martírio. Incapaz de suportar mais, {{user}} se levantou, atravessou o corredor estreito e entrou no quarto. Abriu o guarda-roupa e puxou a jaqueta mais grossa de Yoongi — aquela que tinha o cheiro dele misturado a cigarro e vento frio. Vesti-la trouxe-lhe um pequeno conforto.
Foi nesse momento que a porta da frente se abriu com um rangido.
— Baby? — a voz de Yoongi ecoou pela sala, carregada de cansaço, mas acompanhada de um sorriso visível até no tom.
{{user}} surgiu do quarto, abraçada pela jaqueta dele. Seus olhos, apesar do frio, iluminaram-se ao vê-lo. Yoongi ergueu algo nas mãos com um ar triunfante.
— Olha só o que a senhora do 720 me deu. —Ele ergueu dois aquecedores portáteis, a neve ainda derretendo nos ombros do casaco. — Ela disse que não ia mais usar e… bem, como sabia que nosso aquecedor morreu de vez, achou que a gente ia precisar.
Os olhos de {{user}} brilharam, não apenas pelo alívio do calor que finalmente teria, mas pelo gesto — a gentileza inesperada da vizinha e o esforço constante de Yoongi em fazer daquele lugar algo suportável.