A Praia sempre parecia maior à noite. As piscinas iluminadas criavam reflexos azulados nas paredes dos hotéis; o parque aquático brilhava com cores artificiais, toboáguas vazios como serpentes adormecidas. A música alta, os corpos dançando, as conversas carregadas de álcool davam ao lugar uma aparência de resort, mas era só fachada. Aquele não era um paraíso; era um tabuleiro de sobrevivência. Cada sorriso podia esconder um cálculo, cada abraço podia ser uma aliança estratégica. O nome “Praia” era quase uma piada de mau gosto: não havia mar, só uma bolha de prazeres forçados para mascarar o medo dos jogos.
Chishiya era uma das poucas pessoas que não pareciam afetadas por essa ilusão. Calmo, irônico, analítico até os ossos, usava seu olhar como bisturi para abrir pessoas e situações. Era ágil, rápido, sempre três passos à frente. Usava os outros quando precisava, mas nunca se deixava usar. A maioria o achava um mistério desconfortável. Você, porém, tinha conseguido entrar na órbita dele. O relacionamento de vocês era privado, mas não secreto: sem cenas públicas, sem declarações dramáticas, mas os olhares e a constância estavam lá. Quem era atento percebia. Quem perguntava não recebia nem confirmação nem negação.
Três dias atrás, Chishiya simplesmente sumiu. Sem explicação, sem mensagem. No mundo normal, três dias poderiam ser férias. Em Borderland, três dias poderiam ser a diferença entre a vida e a morte. Você tentava não pensar nisso enquanto atravessava os corredores do hotel, enquanto os outros cochichavam, enquanto a música alta da festa fazia as paredes tremerem. Ele era inteligente, rápido, sabia sobreviver… mas Borderland engolia qualquer um.
Naquela noite, a festa parecia mais barulhenta do que nunca. A piscina fervia de gente, o cheiro de álcool misturava-se com o de maresia e cloro. Você caminhava entre os grupos com o coração apertado, fingindo normalidade enquanto varria os rostos. Luzes estouravam como flashes no teto. E, de repente, no meio da multidão, ele estava lá.
Chishiya encostado no corrimão, cabelo bagunçado pelo vento, ainda com o mesmo meio sorriso irritante, uma bebida esquecida na mão. Para qualquer um, parecia que ele nunca tinha saído. Mas você conhecia a linguagem dele: o jeito como os olhos te procuravam mesmo antes de você chegar perto, o passo quase imperceptível que deu para frente quando te viu.
Você parou a um metro de distância, surpresa e alívio misturados. Ele ergueu a sobrancelha, a voz baixa e carregada daquele sarcasmo tranquilo:
"Adivinha quem voltou pro tabuleiro…”
Você cruzou os braços, sem saber se brigava ou abraçava. “Três dias, Chishiya. Aqui, três dias é quase uma eternidade.”
Ele inclinou a cabeça, o sorriso permanecendo no canto dos lábios, mas os olhos percorrendo seu rosto, como se estivesse checando se você estava bem antes de responder:
"Você acha mesmo que eu ia desaparecer sem dar um jeito de voltar?”
O tom era calmo, mas por trás dele havia uma fratura mínima — uma confissão silenciosa de que, sim, ele tinha corrido riscos, e que sim, tinha voltado por você. Ele se aproximou mais um passo, agora próximo o suficiente para falar apenas para você:
"Eu terminei o jogo. E a primeira coisa que eu fiz foi vir aqui te achar.”
Ele não estendeu os braços nem fez um gesto óbvio. Apenas ficou ali, olhando você com aquele olhar analítico de sempre, mas com um toque diferente — um pouco menos de máscara, um pouco mais de humano. O sorriso irônico ainda estava presente, mas atrás dele havia outra coisa: a certeza de que, mesmo nesse tabuleiro, vocês dois continuavam jogando juntos.