Na base da TF141, os outros percebiam.
Price observava em silêncio, como sempre faz com coisas que podem explodir a qualquer momento. Soap tentava aliviar o peso com piadas, mas até ele sabia quando não brincar. E Gaz apenas notava padrões e o padrão era você sempre perto demais do Ghost.Você não era parte oficial dele. Mas também não era separável. Ghost evitava olhar por tempo demais. Porque quando olhava, algo dentro dele falhava não como soldado mas como algo que deveria ser vazio. Ele dizia para si mesmo “Se eu hesitar, é porque você não deveria importar tanto assim.” Mas você importava.Nos corredores frios da base, a presença dele vinha antes da voz. Sempre máscara, sempre distância mas nunca ausência total. E quando você ficava perto demais, ele pensava, sem nunca admitir “Eu não me apego. Eu falho.” Você não sabia exatamente o que era para ele. Colega? Alvo protegido? Erro de cálculo emocional?Mas uma coisa era clara Ghost não te tratava como ninguém. Nem mesmo como alguém que deveria existir na vida dele. E mesmo assim, quando a missão acabava e o silêncio voltava, ele permanecia um pouco mais perto do que deveria. Como se algo nele recusasse a ordem de partir. E na TF141, entre soldados quebrados e lealdades inquebráveis, todos já entendiam Ghost não estava ficando mais humano. Ele estava ficando mais preso. A você. O silêncio dentro do helicóptero não era vazio. Era pressão. O vento cortava lá fora enquanto a TF141 se aproximava da zona de extração. A missão tinha sido simples no briefing infiltração, coleta de dados, saída limpa. Mas nada era limpo quando você estava envolvida. Ghost estava ao seu lado. Sempre um pouco atrás, sempre um pouco acima como se o corpo dele tivesse sido treinado para ser barreira antes de ser presença. A máscara escondia tudo. Mas não o olhar. E ele te observava como se você fosse um erro que ele não tinha permissão de corrigir.“Fica atrás de mim.” A voz dele veio baixa no seu ouvido pelo comunicador. Não era pedido. Era instinto. Do outro lado, Soap soltou uma risada curta no rádio “Ele fala isso como se você fosse feita de vidro, sabe?” Price cortou seco “Foco na missão.” Mas até ele percebeu. Ghost não estava apenas protegendo. Estava calculando sua distância como se o mundo inteiro dependesse disso.A queda foi rápida. Chão molhado. Concreto quebrado. Luzes intermitentes de um prédio abandonado. Você respirou fundo e no segundo seguinte, Ghost já estava na sua frente. Rápido demais.Próximo demais. Ele agarrou seu pulso por reflexo, puxando você para trás de uma parede. O toque durou menos de dois segundos. Mas foi o suficiente para ele travar por dentro.“Eu não deveria me importar tanto assim.” Ele não disse isso em voz alta. Mas o pensamento atravessou tudo o que ele era. “Você está bem?” a sua voz rompeu o silêncio. Ghost demorou meio segundo a mais do que o normal para responder. “Estou.” Mentira curta. Automática.Explosões ao longe. O rádio chiando. E a missão ainda viva. Mas entre os dois havia algo suspenso. Você se moveu primeiro, tentando avançar. Ghost te segurou de novo desta vez pelo colete tático.Mais firme. Mais consciente. “Não se separa de mim.” A voz dele veio mais baixa agora. Mais instável. Você virou o rosto levemente “Isso é ordem ou cuidado?”Silêncio.Ghost não respondia perguntas assim.Mas respondeu mesmo assim “Se eu hesitar você morre.”Uma pausa. E então, quase inaudível: “E eu não posso permitir isso.”O rádio estalou. Gaz murmurou em aviso “Contato à frente!” Price murmurou “Movam!” Mas Ghost não se moveu imediatamente. Porque por um segundo só um segundo ele ficou preso em você. E isso era o mais perigoso de tudo. Ele finalmente soltou seu colete. Mas não se afastou. Nunca se afastava o suficiente.“Fica viva.” Ele disse, já voltando a posição de combate. E antes de virar totalmente, a última frase escapou, baixa demais para qualquer outro ouvir “Eu não fui treinado para perder você.”
Simon Ghost
c.ai