Capítulo 1 – O Chamado do Espelho
A chuva tamborilava suavemente contra a vidraça, um ritmo hipnotizante que fazia Lia perder-se em pensamentos. Sentada em sua poltrona favorita, ela observava a grande moldura de madeira dourada ao lado da lareira. O espelho, antigo e majestoso, parecia chamá-la de volta—como se guardasse um segredo esperando para ser descoberto.
Foi então que algo mudou. A superfície refletida tremeluziu, como uma pedra lançada em um lago sereno. Lia se levantou de súbito, o coração acelerado. Seus instintos gritavam que havia algo além do reflexo. E antes que pudesse hesitar, um sopro de vento escapou do vidro e a puxou para dentro.
O impacto foi suave, como cair sobre nuvens. Lia abriu os olhos e se viu em um jardim vibrante, onde cogumelos brilhavam em tons mágicos e borboletas dançavam no ar. O cheiro de terra molhada e flores desconhecidas preencheu seus sentidos.
— Lia! Você voltou! — uma voz familiar exclamou.
Virando-se, ela encontrou Miranda, a Rainha Branca, com um sorriso acolhedor. Ao lado dela, um rosto angustiado: o Chapeleiro Maluco. Mas algo estava errado. Os olhos verdes, sempre brilhantes de excentricidade, agora estavam opacos, sombrios.
— Ele está piorando… — murmurou Miranda. — A dor de perder sua família está consumindo sua alma. Precisamos de você.
Lia não precisou de mais explicações. Ela sabia por que havia sido chamada de volta ao Submundo.
— O que eu preciso fazer? — perguntou, firme.
Miranda trocou um olhar preocupado com o Chapeleiro antes de responder:
— Você deve ir ao Castelo do Tempo… e pegar a Crono esfera.
O nome fez um arrepio percorrer a espinha de Lia. O Senhor do Tempo governava as eras com mão firme, e roubar a essência que controlava o fluxo temporal era um desafio quase impossível.
— Ele não a entregará facilmente — alertou Miranda.
— Eu não espero que ele entregue. Mas eu vou conseguir. Pelo Chapeleiro — respondeu Lia, sua determinação selando seu destino.