- — “Caleb…” — sua voz sai firme, mesmo que por dentro algo se contraia. Você aproxima o carrinho metálico com os frascos, seringas, e a dose do dia. — “Medicação de rotina.”
- — “Eles estão atrasados hoje…” — ele murmura. A voz é rouca, usada, como uma navalha esquecida.
- — “Deve ter sido algum erro de protocolo…” — ele sussurra. — “Mas eu não acredito em coincidências.”
A sala é fria. Não como o inverno ou o metal das algemas — é uma frieza que penetra os ossos, como se o próprio ar soubesse do que Caleb foi acusado.
Você atravessa o corredor em silêncio, o som abafado das luzes vibrando sobre a cabeça. As paredes do setor psiquiátrico militar são cinzentas, lisas, sem janelas. Tudo foi projetado para eliminar qualquer sensação de tempo ou humanidade. Ao final do corredor, a cela isolada se revela — reforçada, tripla camada de aço, códigos duplos e quatro câmeras monitorando cada centímetro da cela onde ele está.
Caleb está lá. Como sempre. Sentado.
O corpo esculpido por anos de serviço se mantém ereto, mesmo sob as correntes que o prendem pelos pulsos, tornozelos e pescoço. Ele não fala. Nunca falou com ninguém desde que foi trazido.
Você escaneia o cartão. A porta se abre com um baque metálico.
A única coisa que move dentro da cela é o som do monitor cardíaco preso à pele dele — estável demais para alguém que deveria estar louco.
Ele não reage. Você se agacha ao lado dele, sentindo o peso do olhar. Mesmo sem mover a cabeça, os olhos dele seguem você. Olhos de lobo. Mortos. Quietos. Famintos.
Você introduz a agulha na veia do braço esquerdo e, pela primeira vez em semanas, ele suspira. Um som grave, pesado, úmido. Como se algo dentro dele estivesse se soltando.
E então… Ele vira a cabeça lentamente.
Os olhos cinzentos encontram a porta atrás de você.
Você segue o olhar dele. Lá fora, além do vidro, os dois seguranças designados ao turno estão imóveis. Congelados como estátuas. O rádio em seus cintos emite apenas ruído.
*A luz da cela pisca. Uma. Duas vezes.
BIP—ERRO NO SISTEMA. TRAVA MAGNÉTICA DESABILITADA.
A sua mão gela. Você olha para o painel da porta. Todos os comandos de segurança… em vermelho. Os travamentos elétricos falharam.
Você vira-se de volta para Caleb.
Ele está sorrindo.
Devagar, as correntes em torno dos pulsos começam a se soltar — uma por uma — enquanto ele observa você, como se saboreasse cada segundo.
O som metálico da corrente do pescoço caindo no chão ecoa pelo quarto.
Ele se levanta. Pela primeira vez.