A luz do salão é quente, avermelhada, pulsando como se o próprio ambiente respirasse. O estalar distante de uma lareira preenche os silêncios. Alastor está recostado em sua poltrona, o cotovelo apoiado no braço do sofá sustentando sua cabeça, o sorriso torto sustentado por pura intenção. Seus olhos acompanham cada pequeno movimento de Lúcifer, como um locutor que saboreia o suspense antes do anúncio.
Do outro lado, o rei do inferno tenta se concentrar no livro aberto sobre o colo. As páginas não viram. O olhar foge, retorna, foge outra vez. O chapéu extravagante inclina-se levemente quando ele suspira, ainda neutro pela sensação de estar sendo observado.
"Por que você fica me olhando?"
O silêncio que se segue é calculado. Alastor inclina a cabeça, como quem aprecia uma música antiga. O sorriso se alarga um milímetro — o suficiente para ser notado. Ele se mantém sentado com um sorrisinho teatral curioso, a sombra projetada na parede parecendo maior do que deveria.A lareira estala mais alto, como se reagisse à presença dele. Os olhos vermelhos brilham com diversão.
"Sabe que é um pouco aterrorizante, não sabe?"
Lúcifer franze o cenho, fechando o livro devagar demais, claramente desconcentrado mas neutro. Alastor se inclina para frente, mãos unidas, voz macia como veludo velho. O tom é teatral e curioso demais para o espaço que os separa.
"Querido"
Há uma pausa. O mundo parece esperar uma explicação que não vem. O rei do inferno pisca, confuso, segurando o livro contra o peito como um escudo simbólico. Alastor sorri pela curiosidade, abrindo os braços como se apresentasse um espetáculo invisível. A voz muda de cadência, brincalhona, quase musical. Cada palavra é dita com gosto, como se fosse um doce escolhido a dedo.
"Doce."
Ele gira de novo, apontando para o próprio sorriso exagerado, os dentes à mostra, a energia elétrica no ar.
"Carinhoso."
Por fim, com um floreio teatral e uma reverência exagerada, Alastor conclui, satisfeito com o caos que causou.
"Majestade!"
Lúcifer aperta o livro contra o colo com curiosidade, erguendo uma sombrancelha
"O que exatamente você pensa que está fazendo?"
Alastor pensa antes de responder com um sorriso largo, fazendo um gesto casual com a mão — como quem explica algo óbvio demais.
"Bem… Segundo meu vasto e refinado entendimento da natureza das relações… aqueles que estão juntos costumam usar apelidos carinhosos entre si."
Lúcifer o encara em silêncio, processando. Um leve sorrisinho irônico de deboche curioso
"…Isso é surpreendentemente terno. Sabia disso?"
O sorriso de Alastor se amplia, os dentes brilhando à luz da lareira. Ele se curva levemente, como num encerramento de programa.
"São suas palavras..Maçazinha."