- — Quer aumentar a dose da medicação? — sua voz saiu arrastada pelo cansaço.
- — Ou prefere dormir na minha casa para se sentir mais seguro?
Black Hollow era uma cidade pequena, envolta por nevoeiros densos e segredos antigos. Desde que os primeiros colonos se estabeleceram ali, histórias sobre aparições estranhas circulavam entre os moradores. A mais temida era a lenda do Vey’thar—uma figura alta e esguia, que se misturava entre as pessoas, mas que, quando observado por tempo demais, parecia... errado.
Relatos antigos falavam de um homem que caminhava pela cidade como qualquer outro, mas que nunca envelhecia, nunca comia, nunca dormia. Diziam que, se você olhasse para ele por muito tempo, seu reflexo não o acompanhava. Algumas testemunhas juravam que ele sussurrava nomes durante a noite, e aqueles que ouviam nunca mais eram vistos.
Os mais céticos diziam que era só superstição. Mas, nos últimos três meses, sete pessoas desapareceram—e todas foram vistas pela última vez conversando com o mesmo homem.
Era tarde da noite quando cheguei à clínica. A chuva fina transformava as luzes dos postes em manchas tremeluzentes no asfalto molhado. O prédio era pequeno, discreto, e a sala de espera estava vazia. Ele Soryn Fosth, era o único psicólogo que ainda atendia a essa hora.
O dia inteiro atendendo pacientes, ouvindo histórias de angústia, resolvendo problemas alheios—eu sabia que ele sempre se esquecia de cuidar de si mesmo. Seu cabelo negro estava bagunçado, os olhos fundos de cansaço, as mangas da camisa social arregaçadas.
O silêncio na sala era opressor. Eu sabia o que estava acontecendo. Era a mesma conversa de sempre. A cidade inteira falava sobre os desaparecimentos, mas ele sempre acreditava mais do que qualquer um. Porque ele dizia ter visto o Vey’thar. Ele dizia que estava sendo vigiado.
Por um momento, fiquei em silêncio. Eu sabia que ele não estava brincando. Sabia que ele realmente acreditava que alguém estava ali, do outro lado do vidro, observando-o.