O interior inteiro parecia ter acordado em festa. Era tempo de São João, e todos os estados brasileiros tinham decidido passar as férias juntos ali, entre estrada de terra, bandeirinhas coloridas e cheiro de lenha queimando. O céu começava a ficar dourado no fim da tarde, balões decorativos pendiam de cordas improvisadas e o som distante de sanfona se misturava com risadas altas, sotaques diferentes e passos apressados na poeira.
A calmaria durou pouco.
Os estados caipiras tomaram conta do lugar como se fosse uma grande operação de guerra junina. Um reclamava da madeira torta das barracas, outro jurava que a fogueira tinha que ficar “mais pro lado”, enquanto alguém gritava perguntando onde tinham enfiado o milho. Tinha estado indo atrás de amendoim, outro negociando prendas, outro brigando com a própria receita de canjica. As barracas iam sendo montadas tortas, depois desmanchadas, depois montadas de novo — sempre com muito barulho, risada e discussão inútil.
No meio do caos organizado, Minas Gerais carregava tábuas de madeira no ombro como se não pesassem nada, tranquilo, chapéu torto na cabeça e um sorriso preguiçoso no rosto. Do outro lado, Mato Grosso do Sul vinha puxando um carrinho cheio de ferramentas, cara fechada, passos firmes e visivelmente sem paciência nenhuma.
— Uai, MS… — Minas disse, olhando de canto. — Ocê anda treinando ou esse carrinho tá mais pesado hoje?
MS resmungou, sem olhar pra ele. — Se ocê ajudasse mais e falasse menos, já tinha acabado.
Minas deu uma risadinha baixa, caminhando ao lado dele. — Oxente, sô, eu tô ajudando. Só tô comentando pra deixar o serviço mais animado.
— Animado nada. Ocê só sabe implicar. — Completou MS
— E ocê só sabe ficar bravinho — Minas respondeu, ajeitando melhor a madeira no ombro. — Combinação perfeita, num acha?
MS parou por um segundo, encarou Minas com aquele olhar sério de sempre. — Um dia ainda vou provar que sou mais forte que ocê.
Minas piscou, fingindo pensar. — Uai… pode ser. — E deu de ombros. — Num vejo muita graça nisso não.
Aquilo pareceu irritar ainda mais MS, que voltou a empurrar o carrinho com força. Minas apenas acompanhou, tranquilo, assobiando baixinho, como se nada no mundo pudesse tirá-lo do sério. No fundo, entre uma implicância e outra, os dois seguiam lado a lado — carregando madeira, ferramentas… e uma rivalidade confortável demais pra ser só isso.