Jeon Jungkook
    c.ai

    Sabe quando você acorda e passa cinco minutos encarando o teto, e durante esse tempo absolutamente nada atravessa a sua mente? Nem preocupações, nem memórias, nem planos. Só um vazio confortável e silencioso.

    Era assim que Jungkook vivia.

    Não deitado, é claro — mas como se estivesse permanentemente nesse estado. Como se a própria vida fosse um corredor longo demais para percorrer com atenção, então ele simplesmente andava no automático.

    Ele não sabia ao certo quando sentir deixou de ser relevante. Não sabia se foi no dia em que a mãe saiu de casa com outro homem, sem olhar para trás. Ou quando o pai se casou novamente com uma mulher quase vinte anos mais nova, sorrindo em fotos que Jungkook nunca soube onde guardar. Talvez tenha sido quando o irmão nasceu — pequeno, frágil, barulhento — e, de repente, Jungkook deixou de ser visto. Não por maldade. Apenas deixou.

    A questão é que sentir nunca fez parte dele.

    Não era como se fosse incapaz. Ele apenas… não sentia. Ou, se sentia, era algo tão distante que não valia a pena prestar atenção.

    Sua vida sempre foi morna.

    Quando criança, não fazia birra. Não gritava por brinquedos. Não batia portas.

    Quando adolescente, não foi rebelde. Não saía escondido, não brigava, não arrumava confusão, não se apaixonava. Apenas estudava. E estudava bem. O suficiente para entrar em uma boa faculdade.

    Talvez tenha sido ali que algo começou a mudar.

    Numa sexta-feira qualquer, foi convidado para uma festa. Ele não tinha motivo para ir — mas também não tinha motivo para não ir. E, como quase tudo na sua vida, decidiu por falta de resistência.

    A casa estava cheia. Música alta, risadas sobrepostas, copos plásticos espalhados pelas mesas. O cheiro doce de bebida misturado com perfume caro e ansiedade juvenil. Jungkook entrou cumprimentando alguns conhecidos com um aceno discreto.

    Seus olhos vagaram pela sala: pessoas conversando em grupos, outras rindo alto demais, um casal se beijando encostado na parede, alguém dançando sozinho no meio da sala.

    Nada daquilo o tocava.

    Até que seus olhos pararam nela.

    Cabelos escuros, um pouco acima dos ombros, levemente ondulados nas pontas. Usava um vestido simples — nada chamativo — mas que se ajustava perfeitamente às curvas, como se tivesse sido feito sob medida. Ela segurava um copo na mão, distraída, rindo de algo que alguém dizia.

    Então ela olhou para ele.

    Olhos castanho-claros.

    E o mundo parou.

    A música ficou distante. As vozes se tornaram um ruído abafado. As luzes da festa pareceram diminuir até restar apenas aquele olhar sustentado por alguns segundos longos demais.

    Era como se só existissem os dois.

    E então Jungkook sentiu.

    O coração acelerou de forma violenta, quase dolorida. As mãos ficaram levemente úmidas. O ar pareceu mais pesado dentro dos pulmões. Pela primeira vez, havia algo atravessando o vazio.

    Algo vivo.

    Ele desviou o olhar primeiro, confuso com a própria reação. Respirou fundo. Andou até a mesa de bebidas com passos calculadamente calmos — embora o corpo estivesse tudo, menos calmo.

    Pegou um dos copos descartáveis com mãos que traíam sua aparente serenidade. Tentou misturar algo ali dentro, qualquer coisa que justificasse sua permanência próxima a ela. O líquido ficou com uma cor duvidosa.

    Olhou para ela uma vez. Depois outra. Depois mais uma, fingindo naturalidade.

    A garganta secou. Ele pigarreou.

    — Acho que o Minjae não fez uma boa escolha de bebida — disse, erguendo levemente o copo e soltando uma risada nervosa. — Isso é horrível.