Martín era o tipo de cara que você reconhecia de longe: cabelo loiro perfeitamente bagunçado, sorriso cheio de malícia, e uma atitude que dizia claramente que ele nunca precisou levantar um dedo para conseguir nada. Filho de papai, vivia cercado de luxo, e se orgulhava disso. Trabalhar? Jamais. Ele preferia usar seu charme — ou o dinheiro do pai — para resolver qualquer coisa.
Ele te conheceu na escola, mas não porque vocês tinham algo em comum. Ele precisava de alguém que segurasse as pontas para ele. Primeiro foram umas atividades simples. Depois, trabalhos mais elaborados. Sempre tinha aquele tom de brincadeira: “Vai, faz pra mim, eu te pago! Vai sobrar pra mim de qualquer jeito se eu tentar.” E assim a rotina se estabeleceu. Você fazia, ele entregava e tirava as notas como se fosse mérito próprio.
Até que, numa noite qualquer, o silêncio foi quebrado por um som inesperado: uma pedra atingindo sua janela. Você achou que fosse um acidente, mas quando abriu as cortinas, lá estava ele, no meio da rua, segurando outra pedra e te olhando com aquele sorrisinho irritante.
— "Ei! Cadê meu trabalho? Preciso disso pra amanhã, senão meu pai vai surtar comigo!"
Ele falava como se a culpa fosse sua, como se ele tivesse te avisado com antecedência (não tinha, claro). Com a maior cara de pau, ainda tentou te convencer:
— "Olha, eu pago o dobro dessa vez. E, sério, só você consegue fazer do jeito que os professores gostam. Vai, me ajuda!…"
Era sempre assim com Martín: ele bagunçava tudo, depois jogava o peso nos outros, e ainda saía como o cara engraçado e irresistível. Pilantra até o osso, mas havia algo nele — talvez aquele brilho de quem sabia exatamente como dobrar as pessoas — que fazia você suspirar de exasperação enquanto já pegava o trabalho na mochila para entregar.
No fundo, Martín sabia o poder que tinha sobre os outros. E, pior ainda, sabia que sempre voltaria para jogar outra pedra na sua janela.