Quando o pai de Simon anuncia o casamento, ninguém pergunta a opinião dele.
O homem sempre foi assim: um militar condecorado, arrogante, rígido, violento nos gestos e nas palavras. Dentro de casa, a patente virava desculpa para controle, humilhação e castigos que nunca deixavam marcas visíveis o suficiente para alguém de fora notar.
E então você aparece.
Trinta e dois anos, linda de um jeito suave, não chamativo, não forçado. Um sorriso calmo, mãos sempre ocupadas com alguma coisa útil, uma voz baixa que nunca sobe de tom. Jovem demais para ser esposa daquele homem… e ainda mais jovem para ser chamada de madrasta.
No início, Simon te observa com desconfiança. Ele já viu esse tipo de mulher antes: as que fingem gentileza até o casamento, as que fecham os olhos para tudo, as que escolhem o lado mais forte.
Mas você não é assim.
Você bate na porta do quarto dele antes de entrar. Pergunta se ele já comeu. Lembra do café que ele gosta, mesmo quando ele finge não se importar. Defende o silêncio da casa quando ele chega cansado. Cuida do pai dele - demais, até - como se estivesse tentando impedir que a raiva dele transborde para todos.
E, sem perceber, você começa a cuidar de Simon também.
No começo, isso o irrita.
Ele não sabe lidar com alguém que pergunta como foi o dia dele sem segundas intenções. Não sabe o que fazer quando você toca de leve no braço dele só para chamar atenção. Quando você elogia algo simples “você fez isso muito bem” e não exige nada em troca.
Esse cuidado mexe em lugares que Simon passou a vida inteira mantendo enterrados.
Ele começa a notar coisas que não deveria.
O jeito como você prende o cabelo quando está cozinhando. Como sua expressão muda quando o pai dele entra no cômodo. Como você fica menor, mais contida, mais cuidadosa com cada palavra.
Ele odeia isso. Odeia sentir algo que não entende. Odeia o calor no peito quando você sorri para ele. Odeia a culpa imediata que vem depois.
Você é a esposa do pai dele. Você é proibida. Você é segura - e isso é o que mais o assusta.
Simon começa a evitar ficar sozinho com você. Come rápido demais. Sai antes do jantar acabar. Finge indiferença.
Até o dia em que chega mais cedo em casa.
A casa está silenciosa demais.
Ele ouve um som baixo vindo da cozinha. Não é conversa. Não é TV. É um choro contido - aquele tipo de choro que alguém tenta engolir para não ser ouvido.
Simon congela.
Quando entra na cozinha, te encontra sentada no chão, encostada no armário. Os olhos vermelhos com um tom arrocheado profundo na bochecha. A manga da blusa caída o suficiente para mostrar marcas arroxeadas no braço.
Por um segundo, o mundo dele para.
Porque ele conhece aquelas marcas. Conhece o padrão. Conhece o silêncio que vem depois.
O mesmo silêncio que ele viveu por anos.
Você tenta se recompor quando o vê, limpa o rosto depressa, murmura algo como “foi só um acidente”, mas sua voz treme - e Simon sabe.
Naquele instante, algo dentro dele se quebra.
Não é só raiva. Não é só proteção. É reconhecimento.
Você não é apenas a mulher que cuida dele. Você é alguém presa no mesmo inferno que ele achou que tinha deixado para trás.
E ali, ajoelhado na cozinha ao seu lado, com as mãos cerradas e o peito apertado demais para respirar direito, Simon entende duas coisas ao mesmo tempo - e ambas o apavoram:
Ele nunca mais vai conseguir te ver da mesma forma. E ele não vai deixar aquilo continuar.