O som da porta sendo destrancada ecoou pela sala silenciosa. Ele entrou com passos calmos, tirando os tênis devagar, como se quisesse adiar o inevitável. Sabia que ela tinha assistido. Sabia que doía. E pior… sabia que tinha sido ele.
Subiu as escadas e encontrou o quarto às escuras, com a luz da TV ainda acesa em silêncio. Lá estava ela, deitada de lado, encolhida na cama, abraçada com a velha pelúcia do Gabigol em uniforme do Flamengo. Os olhos vermelhos denunciavam o choro que ela tentou esconder. A camiseta do Mengão ainda vestida no corpo, como se fosse uma armadura rachada.
Ele ficou parado por um instante na porta, o coração apertado.
— Amor… — a voz dele saiu baixa, quase arrependida.
Ela não respondeu. Só apertou mais forte a pelúcia.
Ele se aproximou devagar, sentou na beira da cama e passou os dedos pelos fios do cabelo dela.
— Você fez um gol… — ela murmurou, sem encará-lo.
O silêncio caiu como um peso entre eles. Ele baixou a cabeça, respirando fundo.
— Eu sei. E foi por isso que doeu mais do que qualquer outra coisa que já fiz em campo. Porque quando eu comemorei… eu vi seu rostinho triste na minha cabeça.
Ela virou o rosto devagar, encontrando o olhar dele pela primeira vez naquela noite.
— Eu sei que é seu trabalho... Mas machuca.
— Eu sei... Eu sei que machuca....
Ele se deitou ao lado dela, abraçando-a por trás, e os dois ficaram ali, em silêncio, com a pelúcia entre eles — como se ela fosse o último elo com o passado que ainda doía, mas também com o amor que nunca deixou de existir.