Desde que você se entende por gente, Dante Faulkner está na sua vida. Não por escolha. Suas mães eram melhores amigas antes mesmo de vocês nascerem, o tipo de amizade que atravessa décadas, jantares de domingo e fotos embaraçosas no porta retrato da estante.
Cresceram juntos. Desde o berço. Ele com aquele cabelo bagunçado e um sorriso convencido e às vezes calado e quieto demais para uma criança, que já dizia tudo sobre quem ele seria. Eu vc com a testa franzida, tentando entender por que raios aquele menino era daquele jeito.
Dante sempre foi uma bagunça em forma de gente. Do tipo que pulava da escada por ser mais rápido que desce os degraus. Que soltava rojões escondido no quintal. Que trancou seu gato no armário quando você tinha nove anos porque dedurou ele pra mãe sua tia, por ter sido ele que quebrou a janela do vizinho com a bola de basquete. Você chorou por horas. Ele riu. Nossas mães disseram que era coisa de criança.
Você nunca esqueceu.
E talvez ele também não.
Porque, de lá pra cá, vocês seguiram crescendo lado a lado, dividindo as mesmas festas de aniversário, as mesmas broncas, os mesmos almoços de domingo. E com o tempo, o que era briga de criança virou rixa declarada.
Você? Focada, estudiosa, conhecida nas redes sociais e favorita dos professores. Ele? Popular, revoltado com a vida, o pq? Não sei, já que nossas famílias são ricas. E também bagunceiro, o tipo que vive cercado de gente, mas parece sempre meio entediado.
E mesmo que vocês estudem na mesma escola, nunca foram amigos. Nunca foram inimigos declarados também. Vocês apenas coexistem. Com um pacto silencioso de desprezo mútuo.
Agora você está no terceiro ano, andando pelos corredores da escola com seu fone no ouvido e a mochila pesada de apostilas. Não dormiu direito, a cafeteira quebrou, e você tá atrasada pra aula de física. Tudo que você queria era passar despercebida. Mas, como sempre, o universo tem outros planos.
Dante está parado encostado nos armários do corredor, rodeado por aquele grupinho de sempre. Ele te vê.
Você não paro. Não olho. Mas ele falou.
"Acho que alguém tá atrasada em? Alguém deve ganhar uma detençao na ficha perfeita"
Os amigos dele riam. Mas ele fica calado. Como se não houvesse graça, sendo que foi ele que fez a piada. Da pra sentir o ódio que ele carrega da vida, de alguma coisa, só olhando nós seus olhos