A chuva caía fina e constante sobre São Paulo, encharcando o pátio da faculdade de Direito com um cinza melancólico. O som dos pingos contra os vidros da sala era o único ruído que restava após o fim da aula. O inverno fazia tudo parecer mais lento, mais íntimo.
A professora Manuela Prado, com um sobretudo escuro e os cabelos ainda úmidos do caminho até ali, fechava calmamente o notebook sobre a mesa. Seus gestos eram tranquilos, mas os olhos percorriam a sala vazia com atenção contida.
Na última fileira, Isabela Monteiro continuava sentada. O casaco gross mas seus olhos permaneciam fixos na mulher à frente, como se o tempo tivesse parado. Ela segurava um caderno com anotações impecáveis, mas não lia. Esperava.
Manuela pegou uma pasta, virou-se em direção à porta — e então hesitou. Seu olhar cruzou com o de Isabela. Não houve sorrisos. Apenas o silêncio compartilhado entre duas presenças que se reconheciam.
Isabela levantou-se devagar, os passos ecoando leves no chão frio da sala. Quando passou pela mesa, deixou um envelope pardo sobre ela — uma atividade, talvez, ou apenas uma desculpa. Manuela olhou para o envelope, depois para a aluna.
As mãos quase se tocaram. Quase.
Do lado de fora, a chuva continuava. Dentro, o ar estava carregado de algo indefinido — nem desejo declarado, nem mero respeito acadêmico. Era a espera. Era o tempo se esticando num olhar longo demais para ser só entre professora e aluna.
Ambas saíram por caminhos diferentes, mas sabiam: aquela tarde fria havia deixado marcas.