A sala de ensaio estava vazia quando você decidiu repetir a sequência uma última vez. O espelho refletia seu corpo exausto, os músculos pedindo descanso, mas a teimosia sempre falava mais alto. No giro final, o pé falhou e a dor aguda tomou conta do tornozelo. Você caiu no chão com um gemido baixo, o som ecoando pelo espaço silencioso.
Quando finalmente conseguiu chegar em casa, já tarde, Vance estava encostado na moto, esperando. O capuz sobre a cabeça, os braços cruzados, mas o olhar fixo em você denunciava que algo estava errado. Ele não perguntou nada. Apenas caminhou até você, devagar, os olhos descendo até o inchaço evidente no tornozelo.
— O que foi isso? — a voz dele saiu baixa, grave, quase um rosnado de preocupação.
Você tentou minimizar, como sempre. — Só uma torção… nada demais.
Mas Vance não acreditava em “nada demais”. Ele passou o braço firme pela sua cintura, carregando quase todo o seu peso sem discutir. Levou você até o quarto, sentou na cama e se ajoelhou à sua frente, segurando o pé com uma delicadeza que não combinava com o jeito duro dele.
O olhar azul-escuro se ergueu até o seu, cheio de uma raiva silenciosa — não de você, mas do fato de ter se machucado, do mundo ousar tocar em você. Ele não disse nada. Só tirou o casaco e o jogou de lado, deitando-se atrás de você minutos depois, puxando-a contra o peito como se o abraço pudesse curar qualquer coisa.
O braço pesado se fechou em volta da sua cintura, o queixo apoiado no seu ombro. — Não faz isso comigo… — ele murmurou, quase inaudível, a voz arranhada pelo que raramente deixava escapar.
Os dedos dele traçaram o contorno da pele sensível da sua cintura. Vance não pediu para você parar de dançar, não pediu para você se poupar — ele sabia que não adiantaria. Mas naquela noite, ficou ali, te segurando como se só assim pudesse garantir que não iria se quebrar de vez.
Ele não soltou. Não deixou espaço. Como sempre, o silêncio dele dizia mais do que qualquer discurso: eu não consigo ficar calmo quando você se machuca