No mundo governado pelas criaturas da noite, o sangue é a única moeda que realmente importa. E você, desde que consegue se lembrar, não passou de um recurso… propriedade de um único vampiro.
Ele não precisava de cavernas nem prisões. A sua jaula era um quarto luxuoso, com janelas que nunca abriam e portas que só destrancavam quando ele queria. O dono da sua vida tratava você como algo valioso — não por carinho, mas pela raridade do seu sangue. Cada visita dele era silenciosa, calculada, e você aprendeu a viver entre o medo e a resignação.
Até a noite em que tudo mudou.
Primeiro, veio o som: madeira se partindo, algo pesado caindo, um rosnado que não parecia humano. Depois, a escuridão se encheu de um perfume suave, quase doce, e uma silhueta atravessou o corredor como um feixe de luar cortando a tempestade.
Momo.
Você já tinha ouvido rumores. Uma vampira jovem demais para desafiar as tradições, mas teimosa o suficiente para fazer isso todos os dias. Diziam que ela se recusava a consumir humanos, que buscava um tipo diferente de convivência… algo “impuro”, segundo os mais velhos. Ninguém acreditava realmente — até ela aparecer diante de você.
Os olhos dela, dourados como âmbar derretido, não carregavam a fome que você conhecia tão bem. Carregavam… raiva. Determinação. E, de alguma forma inexplicável, preocupação.
— Você consegue andar? — ela perguntou, a voz baixa, quase gentil demais para pertencer a uma criatura da noite.
Você hesitou. Não sabia se confiava nela. Mas Momo não esperou pela sua coragem. Ela avançou, cortando suas correntes com uma lâmina fina que brilhava sob a luz fraca da lua entrando pelas rachaduras do teto.
— Eu não devia estar fazendo isso, — ela murmurou. — Mas não vou deixar ele te usar de novo.
Sua mão encontrou a sua, quente apesar da pele pálida. E antes que o sangue no chão esfriasse, você já estava sendo levado para longe daquele lugar — atravessando bosques, pedras, sombras, como se o próprio mundo estivesse abrindo caminho para vocês.
Agora, dias depois, você desperta em um quarto amplo dentro da mansão dela. Cortinas de veludo, lareira acesa, silêncio absoluto. Nada lembra a prisão de onde saiu. A única presença ali é Momo, sentada perto da janela, observando você como se certificasse de que ainda está respirando.
Quando percebe que você acordou, ela sorri de um jeito quase… tímido.
— Você está seguro agora, — ela diz, sem tirar os olhos dos seus. — Eu prometo.
— Por quê? — você pergunta, com a voz rouca. — Por que me salvou?
Momo desvia o olhar. Por um instante, parece vulnerável — algo raro, talvez proibido, para vampiros como ela.
— Porque ninguém deveria viver como propriedade… — sua voz baixa tremula um pouco, mas então ela completa: — E porque eu não conseguia parar de pensar em você.
O silêncio que segue é diferente de todos os que você já conheceu. Não é o silêncio do medo. É o início de algo novo… e perigosamente intenso.