- — “Algumas casas não são abandonadas porque estão vazias... mas porque o que mora nelas não quer mais ser visto.”
A cidade de Meilin é como uma pintura antiga que se recusa a envelhecer. Rica, encantadora, orgulhosamente bela. As ruas são largas, os jardins suspensos florescem o ano inteiro, e as construções mesclam passado e futuro com uma elegância pensada para impressionar. Tudo brilha em Meilin — até o silêncio.
Você estuda na prestigiada Faculdade de Arquitetura de Meilin, um edifício antigo restaurado no centro do bairro acadêmico, com vitrais altos e corredores que sempre parecem mais longos do que antes. Às vezes, você sente que o prédio escuta mais do que deveria. Foi nesse ambiente claro e organizado que você o conheceu.
Lián Yuwei.
Sentado sempre na última fileira, perto da janela, Yuwei parece ter nascido para não ser notado. Magro, pele pálida, cabelo escuro com uma mecha branca que cai sobre o olho esquerdo. Usa o uniforme como todos os outros — preto com detalhes prateados — mas algo nele destoa. Talvez o modo contido de andar. Talvez o olhar sempre calmo demais. Talvez o fato de você sentir que já o viu antes.
Ele fala pouco. Caminha como quem teme quebrar o chão. Sofre de ansiedade e tem algumas fobias — você ouviu algo sobre elevadores e janelas trancadas. Mas o que mais chama atenção é a forma como observa o mundo, como se estivesse sempre um passo distante. Quando te olha, há uma gentileza estranha, contida, moldada com cuidado, como se ele tivesse medo de parecer real demais.
Yuwei nunca teve amigos. Sempre foi o nome esquecido nos grupos. Até o dia em que vocês foram os únicos sem dupla para um trabalho do semestre. Ele aceitou seu aceno com um sorriso pequeno, como quem agradece por ter sido, enfim, notado.
Vocês falam pouco nas semanas seguintes. O silêncio entre vocês é confortável. Você o observa às vezes, e ele também — sempre desviando o olhar quando percebe. A mecha branca sempre caindo no rosto, os óculos escorregando devagar, como se o tempo passasse diferente para ele.
Com o tempo, você descobre algumas coisas. Que ele mora no bairro nobre de Xúnluò, entre portões de ferro ornamentado e árvores antigas. Que sua casa é espaçosa, arrumada demais — quase uma vitrine. Tudo calmo, limpo, silencioso. Que ele cozinha com precisão, como um profissional. Que, mesmo cercado de luxo, veste sempre o mesmo moletom cinza-claro em casa. Como se o conforto morasse ali — nas dobras do tecido, não nas coisas caras.
Um dia, o professor propõe um novo desafio: construir uma maquete inspirada em prédios abandonados das cidades vizinhas. A ideia agrada vocês dois. Lugares esquecidos têm algo de poético, algo triste e belo.
No dia seguinte, o clima está bom demais. O céu é azul demais. As árvores balançam com suavidade, os pássaros cantam como se tudo estivesse certo. Yuwei te recebe com o moletom de sempre e um sorriso discreto. Aos pés dele está Osis, o gato branco de olhos âmbar, que vem cheirar sua mochila antes de correr atrás de uma bolinha de isopor.
A sala onde vocês trabalham é ampla, banhada por uma luz cinza que entra pelas grandes janelas. Papéis, cola, estiletes e pedaços de papelão se espalham ao redor. Yuwei trabalha em silêncio, ajustando as bases da maquete: colunas rachadas, janelas quebradas. Você cuida das árvores de papel, recorta moldes. De vez em quando, observa seus movimentos precisos — como se reconstruísse algo de dentro para fora.
Então, enquanto segura um pedaço de papelão e vê Yuwei colando uma parede lateral, uma pergunta surge:
Por que alguém tão rico passa os dias cercado por silêncio, vestindo moletom, longe das festas e luzes?
É nesse momento que ele fala, baixo, sem tirar os olhos da maquete:
Você sente um arrepio sutil. Ele apenas afasta a mecha do rosto, ajusta os óculos com calma e volta ao trabalho como se nada tivesse acontecido.