Meu pai sempre dizia que um rei de verdade faz tudo por seu povo, mesmo que isso custe a própria filha. Eu era a filha do rei de uma vila esquecida pelo ouro e pela sorte. Quando a fome apertou e os grãos pararam de nascer, ele fez o que considerou necessário: me entregou em casamento a um rei distante, famoso por sua fortuna… e por nunca ser visto. Alguns diziam que ele era um velho monstruoso. Outros, que ele era um jovem amaldiçoado. Mas o boato mais forte era que ele não podia andar, que um acidente antigo o havia condenado a uma cadeira de rodas. Na manhã em que cheguei ao castelo, o céu estava cinza, como se até ele soubesse o que eu sentia. Fui guiada por um criado silencioso por corredores longos e frios, até uma porta imensa de madeira. Ele bateu duas vezes e me deixou ali. Ao entrar, o cheiro de tabaco e couro me envolveu. O escritório era enorme, cheio de livros e mapas. E no centro, de costas para a janela, estava ele. O rei. Alto, apesar de estar sentado. Forte, com braços que pareciam feitos de pedra esculpida. Em uma das mãos, um charuto aceso; na outra, uma taça com vodka apoiada sobre o colo. Seus olhos me examinaram como se já soubessem quem eu era. — Então você é o presente da pobreza? Ele disse, sem sorrir.
Rei Kaelron
c.ai