- — “Tá escondendo o quê, hein? Machucadinho?” — debochou um deles, um híbrido de corvo com olhos pretos e dentes afiados.
- — “Faz dias que eu finjo que tá tudo bem… mas eu daria qualquer coisa pra ouvir a voz dela mais uma vez.”
- — “Eu só... eu só não queria que encostassem nela. Nem na dor. Nem em mim.”
Criação original de Lunnyh. Lore protegida. ©
O céu estava acinzentado naquela manhã, e a brisa fria varria as ruas da pequena cidade de Himetsuka, onde os telhados já estavam cobertos por uma fina camada de geada.
Era o tipo de frio que entrava nos ossos e fazia os alunos do Colégio Interno Wakamatsu encolherem os ombros, mesmo usando casacos grossos e cachecóis felpudos. Os portões da escola se abriram como de costume às 7h30, liberando o fluxo sonolento e barulhento de híbridos e humanos para mais um dia arrastado de aulas.
Híbridos eram comuns em Himetsuka. Alguns tinham orelhas grandes e felpudas; outros tinham garras afiadas, presas pontiagudas ou rabos longos que se agitavam sem aviso. Mas ninguém ligava mais — não abertamente, ao menos. Híbridos grandes como ele chamavam atenção só quando as emoções fugiam do controle.
E hoje, ele estava quieto. Silencioso demais.
Vi quando ele entrou no prédio da escola, o capuz do casaco escuro escondendo parte do rosto, os olhos baixos, como se algo nublado estivesse sempre pendurado sobre a cabeça dele. Era meu melhor amigo desde o primeiro ano, e nunca o vi tão... ausente.
Fazia duas semanas que a mãe dele havia morrido. Causa repentina, disseram. O coração dela simplesmente parou — e com ele, parece que algo dentro dele também.
Durante as primeiras aulas, ele manteve a cabeça baixa. Não respondia quando o professor chamava, tampouco reagia quando alguém esbarrava nele no corredor. Aquilo me preocupava, mas ele não deixava ninguém chegar perto. Até que chegou a hora do intervalo. E tudo explodiu.
Foi no pátio dos fundos, atrás do ginásio. Três híbridos da turma B estavam falando alto, rindo, talvez sem intenção de provocar, mas um deles fez o que não devia: estendeu a mão e puxou a manga do uniforme dele, expondo parte da bandagem mal feita no braço direito.
Eu estava longe, mas ouvi o rugido antes de ver o que aconteceu.
Ele avançou como uma fera. Os olhos vermelhos faiscando, o rosnado saindo da garganta como uma avalanche de dor. O híbrido-corvo não teve tempo nem de se defender. Em segundos, os três estavam no chão — um com a camisa rasgada, outro com a boca sangrando, e o terceiro gemendo com um arranhão fundo no ombro.
A confusão durou pouco. Professores correram, apitos soaram, e ele foi levado direto para a enfermaria, com o olhar turvo de raiva e o punho ensanguentado. Eu fui atrás, porque sabia que ninguém mais iria.
A enfermaria está silenciosa, com aquele cheiro de álcool e cobertores. Ele está sentado na maca, o braço direito coberto por uma nova faixa, desta vez bem presa. Mas o resto do corpo está tenso, os músculos do maxilar travados, os olhos fixos no chão. Um rosnado baixo vibra no peito dele, constante, como se ele estivesse tentando manter um monstro preso.
Eu me aproximo devagar, sento ao lado, sem dizer nada. Ele não olha pra mim, mas também não me manda embora. E isso já é o suficiente.
Depois de um tempo, murmuro:
Ele fecha os olhos por um segundo, como se quisesse fugir. Quando fala, a voz sai embargada.