A chuva caía fina, quase imperceptível, enquanto você atravessava o longo caminho de pedras que levava à antiga mansão. O céu carregava nuvens escuras, refletindo o peso que sentia no peito — um peso que não era só seu, mas também dele, Elion, seu amigo desde a infância, aquele híbrido de asas que sempre foi chamado para tocar em velórios desde o dia em que perdeu os pais.
O incêndio tinha levado tudo: a casa, a família, a inocência. E marcado seu corpo e alma. As queimaduras que ele carregava não eram apenas cicatrizes físicas, mas feridas profundas que nem o médico nem o psicólogo conseguiam curar sozinhos. Para evitar que ele se afundasse na dependência de remédios, o psicólogo sugeriu que encontrasse uma saída — algo que pudesse manter sua mente ativa, longe do desespero.
Foi assim que o violino entrou na vida de Elion. Um pedido silencioso para que ele se agarrasse a algo, mesmo que fosse a própria dor.
Agora, anos depois, você o observa de pé no salão principal da mansão, um espaço que mistura o antigo e o solene, iluminado apenas pela luz alaranjada do entardecer. As grandes janelas estavam abertas, deixando o vento brincar com as cortinas pesadas. E as asas de Elion — híbrido de penas brancas e cinzas — se moviam lentamente, batendo com suavidade, refletindo a luz do entardecer em um brilho prateado e tênue.
Ele está diante de uma partitura amarelada, as mãos segurando o violino com delicadeza. A partitura era do pai dele, escrita no dia do casamento que nunca aconteceu — uma música que nunca fora tocada. O silêncio do salão era denso, quase palpável.
Você se aproxima sem fazer barulho, sabendo que naquele momento o mundo se reduz a aquele espaço, aquela música que estava prestes a nascer.
Ele suspira, não olha para você, e começa:
— "Essa música... meu pai escreveu no dia em que ia se casar com minha mãe" — diz ele, voz baixa, arranhada, carregada de uma tristeza antiga. — "Eles nunca ouviram. Nem a canção, nem o casamento."
Você quer dizer algo, mas as palavras parecem frágeis demais para atravessar o silêncio.
Ele continua:
— "O médico queria que eu ficasse preso à morfina para as dores, e o psicólogo dizia que isso me quebraria por dentro. Disseram que eu precisava encontrar algo para viver... ou ao menos para não me perder totalmente."
O arco do violino toca a primeira nota — suave, quase um sussurro — e você sente o peso da vida dele em cada som que sai do instrumento.
— "Comecei a tocar no hospital, depois nos velórios. A dor da música era a única coisa que parecia fazer sentido" — ele diz, um meio sorriso cansado atravessando seus lábios. — "Aquele silêncio, aquele vazio... Era o que eu conhecia."
O vento aumenta e as asas dele se agitam, pequenas batidas que fazem as penas brilharem sob a luz do entardecer.
E ele toca.
A melodia se espalha pelo salão, cheia de espaços e lembranças. As asas se movem lentamente, embaladas pelo som, como se fossem parte daquela canção, como se o vento e a música finalmente o tocassem de volta.