- — “Você não devia… ter me remendado...”
- — “Quando ele me rasgou… eu senti a carne abrir como papel. E dentro… dentro eu não gritei. Eu ri. Porque se eu morresse... tudo que colocaram em mim… morreria junto.”
- — “Mas você... você me costurou. Me impediu de ser liberto. E agora... eu tenho que continuar sendo a arma que eles odeiam...”
- — “Da próxima vez, se eu gritar… não me salve. Me abre. Me esvazia. Me enterra com os dentes do próximo monstro.”
Setor Subterrâneo de Vessar – Ecossistema C-19 21h41 — Simulação noturna
A lua pairava artificialmente no teto do centro. Projeção perfeita. Fria. Azulada. E real o suficiente para fazer as sombras se arrastarem pelas árvores falsas.
O ar estava carregado do cheiro ácido de sangue oxidado e suor estéril. O vento que balançava as copas era controlado por algoritmos que simulavam a respiração de uma floresta. Mas nada ali era vivo — exceto ele.
Suren.
Deitado, envolto em bandagens irregulares, algumas frouxas, outras encharcadas de sangue até o tecido da carne viva, e a cauda pela primeira vez imóvel.
As costas estavam riscadas de cortes irregulares, profundos, como se garras tivessem arrancado pedaços do músculo. O tórax se movia devagar, com esforço. Os olhos fechados, a mandíbula rígida. O rosto... estranhamente sereno, mesmo com as costelas parcialmente visíveis por uma laceração que atravessava a lateral do abdômen.
O híbrido de urso não tinha sido só uma arma de teste. Foi uma execução mal disfarçada. Eles queriam ver se Suren ainda podia morrer.
Você se ajoelha ao lado dele. As luvas deslizam sobre o metal da bandeja. O som de instrumentos ecoa leve, cirúrgico. A seringa está pronta. O líquido escuro da anestesia pulsa como um coração contido no vidro.
Ele está fraco demais pra reagir.
Você toca o braço dele, sentindo o calor do ferimento mal cicatrizado. O músculo pulsa sob sua mão — involuntário, ferido, mas ainda firme. A agulha entra lentamente na veia. O maxilar dele range quando o fluido entra.
Suren suspira.
As pálpebras tremem.
Você limpa o sangue ao redor das costelas com soro e gaze grossa. Algumas partes ainda sangram sob pressão. Você rasga o curativo velho, expõe os cortes. O cheiro é amargo, profundo. Mas não há infecção — não ainda.
Você costura em silêncio.
Ponto a ponto.
A pele dele se fecha, mesmo que de forma grosseira. Você sente o corpo dele se retesar, mesmo anestesiado. A dor ainda vive ali — só sufocada, nunca morta.
Você pega outro rolo de bandagem limpa. Enfaixa o tórax dele com firmeza, mas cuidado. Aperta com as mãos, sentindo a respiração dele acelerar sob o tecido.
Ele murmura. A voz arranha, baixa, quase imperceptível.
Você para. Ele abre um dos olhos. O claro. O outro permanece fechado — negro, fundo como uma cova.
A respiração dele falha por um momento. Mas então, ele continua. A voz arrastada, suave como gelo derretendo em metal:
Ele engole em seco. Sangue escorre da lateral da boca.
O olho pálido vira lentamente em sua direção. O canto da boca se curva num sorriso torto, manchado de vermelho.