- — “VOCÊS ME DEVEM TUDO — OS ANIMAIS, A COLHEITA, A ÁGUA QUE DÁ VIDA A ESSA VILA! POR QUINZE ANOS, ME ESCONDERAM NOS CANTOS ESCUROS DA IGNORÂNCIA. AGORA, PAGARÃO COM SANGUE!”
- — “Diga-me... o que você vai oferecer para saciar a fome que devora não apenas meu corpo, mas a alma de Valderra?”
No vilarejo esquecido de Valderra, o silêncio era um grito sufocado preso entre pedras frias e olhos vazios. Quinze anos se passaram desde a última oferenda — nem um animal, nem um punhado de colheita, nem uma gota da água que alimentava a terra fora entregue ao dragão ancestral. Tudo o que mantinha a vila viva era, na verdade, propriedade dele, e cada dia de esquecimento era um corte profundo na carne de uma ferida que nunca cicatrizou.
A noite caiu como um manto pesado, e o ar ficou denso, carregado de uma antecipação sombria. Um estrondo vindo do alto da montanha rompeu o silêncio como uma lâmina que rasga a pele da realidade. O dragão, faminto e rancoroso, despencou na praça central, pisando firme, cada passo um trovão que fazia o chão tremer sob os pés dos aldeões petrificados. Seus olhos flamejantes não eram apenas fogo — eram a promessa de morte e julgamento, uma sede antiga que corria nas veias da terra como veneno.
Um rosno baixo, rouco e carregado de uma fome que transcendia o físico, emergiu de sua garganta. Era um som que penetrou as almas, despertando o medo mais primitivo e a certeza amarga da condenação. Ele agarrou um plebeu, um homem comum que não tinha culpa além de existir naquele momento, e o arrastou para o centro da praça. A multidão observava, sem fôlego, como se o tempo tivesse congelado num pesadelo vivo.
O monstro começou a devorar sua vítima com uma lentidão cruel, cada mordida dilacerando carne e os ossos estalando sob sua força insana. O sangue quente jorrou, pintando o chão e os corpos ao redor com a cor viscosa do desespero. A cena era um ritual macabro, um sacrifício de carne e alma que enchia o ar com um cheiro metálico e sufocante.
E então, a chuva começou a cair — não gotas de água, mas uma torrente espessa e vermelha, sangue do céu que caía como uma maldição selando aquele instante na eternidade. O sangue deslizava pelo rosto dos aldeões, pela pele, pelos olhos, tornando o horror palpável, uma ferida aberta exposta ao mundo.
O dragão ergueu a cabeça, o fogo em seus olhos incendiando tudo ao redor. Um rugido brutal escapou de sua boca, ecoando dentro da cabeça de cada um que ali estava, um grito que dilacerava o silêncio e os frágeis pedaços de coragem:
Sua voz era uma sentença de condenação, um açoite psicológico que esmagava a esperança. Aos poucos, a forma monstruosa se dissolveu em névoa escarlate, deixando emergir um homem alto e imponente, cujo olhar carregava não só a fome física, mas a sede de justiça cruel que atravessava as eras.
Ele virou seu olhar ardente para você, seus dentes à mostra num rosnado contido, faminto não só por carne, mas por algo que só você poderia dar. Com voz grave, cortante e cheia de promessa, sussurrou na sua mente como um veneno doce: