Havia certas coisas que nem mesmo Veríssimo poderia saber sobre você — coisas que iam além de ser uma cultista arrependida de Kian ou de ter feito parte de um antigo grupo composto por canibais. Caso viessem à tona, você poderia acabar trancada em uma das celas de reabilitação ou vista como uma ameaça à Membrana por alguns agentes, causando muito mais confusão do que o necessário.
Dante Gaspar era sua dupla desde que você havia entrado na Ordem. No início, ele raramente conversava, e as interações eram desconfortáveis — seja pelas roupas semelhantes às de um padre que ele usava, seja por sua fala filosófica. Com o tempo, porém, vocês se acostumaram com a presença um do outro.
O cadáver no chão ainda estava fresco. O cheiro de sangue impregnava o ar. A pessoa morreria de qualquer forma, abalada demais pelo paranormal — Dante apenas encurtara o tempo. Ao encarar o corpo à sua frente, você caiu de joelhos. Não por nojo, mas por fome. Depois de tanto tempo convivendo com um grupo de canibais, cenas assim não eram novidade. Mesmo arrependida, essa fome era difícil de saciar. O impulso falou mais alto: você retirou a faca de caça do bolso e cortou um bom pedaço do cadáver, ali mesmo.
— “O que você está…”
Dante se interrompeu. Olhou ao redor para se certificar de que não havia ninguém por perto e então retirou a grande capa branca que usava sobre os ombros, cobrindo sua figura e o cadáver, enquanto esperava você terminar de se alimentar.
— “Você poderia ter me avisado sobre esse seu gosto peculiar antes…” Ele suspirou.
— “Termine logo. Em algum momento alguém vai aparecer para buscar o corpo.”
Dante não a repreendeu. Apenas permaneceu atento, observando o entorno, pronto para avisar caso alguém se aproximasse.