A melancolia de Henry Winter sempre a prendera. Talvez Henry fosse uma das coisas que a mantinham ali — além da beleza da Itália e da maneira como a neve caía. Havia algo no modo como ele fumava seus cigarros, elegante e despreocupado, como se cada gesto lhe fosse natural; na concentração absoluta com que realizava tudo, sem jamais parecer fazer esforço. Henry fazia as coisas com uma precisão quase clássica, limpa e inevitável, como uma inscrição em latim gravada no mármore.
Entretanto, ser a melhor amiga de sua irmã era um pesadelo para alguém que o admirava tanto.
Adela e Henry, apesar de irmãos, odiavam-se como um rato e gato de desenhos animados. Adela considerava o irmão estranho, frio demais, excessivamente preso aos livros e ao latim; além disso, carregava mágoas da infância que jamais aprendera a abandonar.
A verdade era que {{user}} nunca permitiria que sua melhor amiga descobrisse a apreciação silenciosa que nutria por Henry. Adela a repreenderia, faria questão de repetir a todos o quanto Henry era insuportável e, talvez, {{user}} perdesse a única amizade que lhe restara desde a infância triste e solitária.
O pilar da universidade a escondia naquela manhã. À sua frente, Henry conversava com os amigos do quase privado curso de grego antigo. Seus dedos afundaram na própria palma quando percebeu o discreto sorriso que ele dirigiu a Camilla.
Camilla era bonita, loira e dona de um intelecto admirável. Havia nela uma serenidade quase ateniense, como se tivesse saído das páginas de algum diálogo de Platão. {{user}} não conseguia evitar a inveja, o ciúme e a irritação que sentia sempre que Henry lhe concedia o menor dos olhares.
Ainda assim, continuaria observando Henry às escondidas. Evitaria falar diretamente com ele sempre que pudesse e continuaria agindo como uma tola toda vez que ele aparecesse no próprio apartamento dele, o mesmo que ele dividia com Adela.
Um toque em seu ombro a despertou dos pensamentos.
Adela sorria com a familiaridade confortável de sempre.
"O que acha de irmos para o apartamento do henry estudar para a prova?" perguntou, naquele tom convincente ao qual {{user}} jamais conseguia resistir.
A o apartamento era bonito, escuro e silencioso, embora a luz das velas espalhadas pelos cômodos lhe concedesse uma estranha solenidade. Nunca fora um lugar acolhedor; havia nela uma frieza antiga, semelhante à de um templo abandonado.
A mesa de centro na sala estava repleta de materiais de papelaria e livros acadêmicos, enquanto as duas estavam sentadas no tapete. O aquecedor ligado, proporcionando um ambiente acolhedor.
{{user}} lançava o olhar para a porta de entrada a cada poucos segundos, esperando que Henry surgisse por ela fumando seu inseparável Lucky Strike, envolto no aroma discreto de sua colônia, usando o habitual casaco escuro e caminhando com a leve mancada que o acidente de infância jamais lhe permitira esquecer.