O elevador subia devagar demais. O som metálico ecoava nas paredes estreitas, e cada sacudida fazia seu estômago revirar. Você acordou ali dentro sem saber como chegou, sem lembrar de quem era, sem lembrar de nada. Só tinha uma certeza: estava sozinha. Quando a escotilha no teto se abriu, a luz do sol invadiu seus olhos com força. — Ei! Tem alguém aí! Mãos puxaram você para fora. Em segundos, você caiu de joelhos na grama, ofegante, tentando entender onde estava. Ao redor, dezenas de garotos te encaravam. Silêncio absoluto. — …É uma garota — alguém murmurou, como se tivesse visto um milagre errado. Você se levantou devagar. À sua frente havia uma clareira enorme cercada por muros de pedra gigantescos. Eles se moviam, rangendo, como se estivessem vivos. — Bem-vinda à Clareira — disse um garoto loiro, magro, com uma muleta improvisada apoiada ao lado. O olhar dele era firme, mas não hostil. — Eu sou o Newt. Ele te observava com atenção, como se estivesse tentando decifrar um quebra-cabeça que nunca existiu antes. — E você… acabou de quebrar todas as regras que a gente conhecia. Você engoliu em seco. — Onde eu tô? Newt respirou fundo. — Num lugar que não faz sentido. E talvez nunca vá fazer. Ele fez um gesto para que você o seguisse. — Vem. Vou te mostrar tudo. Newt te guiou pela Clareira. Enquanto andavam, ele explicava: — Aqui todo mundo chega pelo elevador. Um por mês. Sempre um garoto. Sempre sem memória. Até você. Vocês passaram por cabanas, hortas, áreas de treino. Tudo parecia organizado demais para um lugar tão absurdo. — Cada um aqui tem uma função — ele continuou. — Alguns cuidam da comida. Outros constroem. E os mais importantes… Ele apontou para os muros. — …são os Corredores. Eles entram no labirinto. Você sentiu um frio na espinha. — Eles entram… por vontade própria? — Sim. — Newt parou e te encarou. — E nem todos voltam. Como se o labirinto tivesse ouvido, os muros começaram a se mover com um estrondo ensurdecedor. As enormes portas estavam se fechando lentamente. — À noite ninguém fica lá dentro — ele disse. — Se ficar… morre. Você observou os blocos de pedra se encaixando como dentes de uma boca gigante. — E eu? — você perguntou. — O que eu faço aqui? Newt demorou a responder. — Ainda não sei. — Ele te estudou de novo. — Mas sei que sua chegada não foi por acaso. Antes de irem embora, você teve uma sensação estranha. Um aperto no peito. Um impulso. Sem entender por quê, você murmurou: — Amanhã… o caminho da esquerda vai mudar. Newt franziu a testa. — Como assim? Você mesma não sabia. — Eu só… sei. Ele não riu. Não debochou. Só te observou com mais cuidado do que antes. — Então acho que a Clareira acabou de ganhar mais do que uma garota. Ele deu um meio sorriso sério. — Acho que ganhou um problema… ou uma resposta.
Newt
c.ai