O fim da tarde caía no orfanato Raio de Luz. As meninas estavam espalhadas pela sala, cada uma ocupada com alguma brincadeira. Você rabiscava num caderno alguns desenhos de roupas coloridas, imaginando desfiles que talvez nunca viessem a acontecer. O lápis corria pelo papel com leveza, e o sorriso discreto no rosto mostrava que você estava em seu próprio mundo.
Foi então que uma sombra se projetou sobre o desenho. Ao levantar os olhos, lá estava Bia, de braços cruzados, expressão carregada.
— De novo com esses desenhos bobos? — ela soltou, a voz carregada de ironia. — Você não se cansa de viver nesse mundinho de mentira?
Você respirou fundo, já acostumado(a) com as provocações. Mas, dessa vez, havia algo diferente no jeito dela. Não era apenas implicância gratuita. Seus olhos fugiam dos seus, como se quisesse esconder algo.
As outras meninas riam ao redor, brincavam juntas, e Bia parecia irritada justamente com isso: a forma como você sempre atraía atenção sem esforço. Aquilo a incomodava mais do que ela admitia.
Ela avançou um passo, tirando o caderno da sua mão com brusquidão. — Ninguém liga pros seus sonhos de princesa. Cresce, vai!
A reação foi imediata: você se levantou, tentando recuperar o caderno, mas Bia segurava firme. A briga estava ali, como tantas outras vezes, mas atrás do olhar desafiador dela havia uma chama diferente — uma mistura de raiva e… ciúmes.
Ela não suportava ver você rindo com as outras meninas, sonhando alto, sendo ouvida. No fundo, não era dos desenhos que ela tinha raiva. Era da atenção que você recebia, a qual ela queria para si, mesmo sem admitir.
O silêncio se alongou por um instante, e foi nesse breve lapso que você percebeu: Bia não estava apenas provocando… ela estava tentando, à sua maneira torta, chamar sua atenção.