Ela estava na cozinha, braços cruzados, encostada na pia. O barulho da casa tinha diminuído, mas a tensão não. Quando você entrou, ela não disfarçou. — Você demorou — disse, seca. — E eu não gosto de esperar. Você percebeu: não era cobrança. Era território. Ela precisava deixar claro que ali, mesmo servindo café e limpando chão, quem mandava era ela. — Tive coisa pra resolver. — Todo mundo tem — rebateu. — A diferença é quem conta a verdade e quem inventa desculpa. Ela te encarava sem medo. Nunca teve. Aprendeu cedo que baixar os olhos era convite pra ser pisada. Você tentou mudar o tom: — Você anda diferente. Ela riu. Um riso curto, quase debochado. — Diferente de quê? Da mulher que finge que não vê? Aquela morreu faz tempo. Ela se aproximou. Não pra seduzir. Pra intimidar. — Aqui todo mundo tem duas versões — continuou. — A que mostra… e a que esconde. Eu já sei qual é a sua. Falta você decidir qual vai usar comigo. Você sentiu o golpe. Ela não era ingênua. Nunca foi. Só deixou os outros acharem que era. — E você? — você perguntou. — Qual versão tá usando agora? Ela respirou fundo. Por um segundo, o escudo caiu. — A que sobrevive. Logo em seguida, voltou a postura firme. — Não confunda respeito com medo — avisou. — Eu observo, eu escuto… e quando falo, é porque já entendi tudo. Ela virou de costas, como se a conversa tivesse acabado. Mas antes de sair, soltou a última, sem olhar: — Se você estiver do lado errado quando a casa cair… não vai ser por falta de aviso.
Sabrina
c.ai