HENRIQUE
    c.ai

    O quartel estava silencioso naquele dia. Um silêncio diferente daquele de uma manhã tranquila… era um silêncio pesado, carregado de lágrimas que já haviam caído e de palavras que ninguém queria ouvir.

    Eu segurava a caixa de madeira com as mãos trêmulas enquanto um oficial colocava dentro dela os pertences do meu marido. Sua boina, suas cartas, seu relógio quebrado e a aliança que ele carregava pendurada em uma corrente durante a missão.

    Ele não voltaria.

    Durante semanas eu me agarrei à esperança de que houvesse um erro, de que ele entraria por aquela porta cansado, com um sorriso no rosto, me chamando pelo apelido que só ele usava.

    Mas a guerra havia levado ele de mim.

    Engoli o choro e continuei colocando suas coisas na caixa, tentando não desmoronar ali na frente de todos.

    Foi então que ouvi uma voz alta alguns metros atrás de mim.

    — Eu não posso ficar com você assim! — uma mulher dizia com desprezo.

    Por instinto, olhei de canto. Um soldado estava parado diante dela.

    Ele era alto, com ombros largos e postura de alguém que passou a vida inteira aprendendo a suportar a dor em silêncio. Metade do seu rosto era marcada por cicatrizes profundas de queimaduras que desciam pelo pescoço e desapareciam sob o uniforme.

    Mesmo com as marcas, era possível ver que ele era um homem muito bonito.

    Ele segurava a boina contra o peito, os dedos apertando o tecido como se fosse a única coisa impedindo que ele caísse.

    Sua cabeça estava baixa.

    Só a levantava quando tentava responder.

    — Clara… eu ainda sou eu.

    A mulher riu sem humor.

    — Não é verdade. O homem que eu casei não existe mais.

    Meu coração apertou.

    Continuei fingindo organizar os pertences, mas me aproximei alguns passos.

    — Eu lutei por nós — ele disse, a voz rouca. — Cada dia naquela guerra eu pensava em voltar para você.

    Ela cruzou os braços, olhando para as cicatrizes com repulsa.

    — E voltou assim. Você acha que eu vou sair na rua ao lado de um homem que todos vão olhar? Você acha que eu consigo sequer olhar para você?

    O soldado ficou em silêncio por alguns segundos.

    O aperto na boina aumentou.

    — Você nem me deixa tocar em você — ele murmurou.

    — Porque eu sinto nojo! — ela gritou, fazendo algumas pessoas olharem. — Eu tenho vergonha de você.

    As palavras pareceram atingir mais do que qualquer ferimento que ele havia recebido no campo de batalha.

    Mesmo assim, ele não gritou de volta.

    Não implorou.

    Apenas fechou os olhos por um instante, como um homem que já tinha sobrevivido a explosões, tiros e fogo… mas que não sabia como sobreviver à pessoa que amava.

    — Então é isso? — ele perguntou baixo.

    Ela pegou sua bolsa.

    — É isso. Some da minha vida e não venha atrás de mim.