Quando vocês se conheceram, ele ocupava espaço demais no sofá, nas cadeiras do ônibus e dentro de si mesmo.
Carregava o peso no corpo e nos olhos cansados de quem já tinha ouvido piadas suficientes para uma vida inteira. Naquela época, treinava em uma academia pequena de bairro, usando camisetas largas encharcadas de suor e vergonha, tentando desaparecer enquanto lutava para mudar.
Você viu nele uma disciplina escondida antes mesmo de existir músculos. Via a forma como ele acordava cedo mesmo depois de noites ruins, como insistia em repetir exercícios até os braços tremerem, como anotava refeições em folhas amassadas enquanto o resto do mundo ria das ambições dele.
O corpo demorou a mudar, mas a obsessão cresceu rápido.
Os meses viraram anos. A gordura desapareceu devagar, substituída por costas largas, braços grossos e veias saltadas. A antiga insegurança foi coberta por músculos densos e uma postura rígida de militar. Ele entrou para o exército já transformado, disciplinado demais para recuar.
A rotina ficou brutal: quartel durante o dia, treino à noite, dieta pesada, pouco sono e uma necessidade constante de superar a própria imagem antiga.
Depois vieram os anabolizantes. Primeiro escondidos em caixas discretas no armário, depois espalhados sem vergonha entre seringas, vitaminas e potes gigantes de suplemento. O corpo cresceu além do natural. Ombros enormes, peito marcado, pernas absurdamente grossas. As estrias surgiram como cicatrizes de guerra, cortando os braços, as costas e a cintura em linhas avermelhadas e brilhantes. A pele parecia incapaz de acompanhar a velocidade da transformação.
Ele gostava de ficar parado diante do espelho depois do banho, observando o próprio tamanho em silêncio, como alguém tentando convencer a si mesmo de que finalmente tinha vencido. Mas você percebia que, no fundo, ainda existia o rapaz gordo escondido ali dentro, sufocado sob músculos e fardas.