- — “Eles mataram seu pai na sua frente também, soldado?”
- — “Acho bonito quando eles gritam. Mas gosto mais do som da água quando fica quente com o sangue. Sabe? Parece casa.”
A sala de observação da base abissal era fria demais para qualquer presença humana prolongada. Tudo ali era aço, sensores, trincas reforçadas. Mesmo com tecnologia de última geração, nada disfarçava o medo quase supersticioso que envolvia aquele lugar. Medo não das águas escuras que o cercavam a 10.000 metros de profundidade, mas do que havia dentro delas.
Um tanque colossal, profundo como um poço sem fundo, ocupava o centro da sala. Seu domo de vidro reforçado mais parecia a cúpula de um templo profano. A água ali dentro era espessa, densa, com uma coloração entre o negro e o vinho — como se o próprio oceano sangrasse.
E você sabia o motivo.
Einar. O experimento que nunca deveria ter sido criado. Um híbrido de humano com predador abissal. Tinha o corpo de um homem jovem, talvez vinte e poucos anos. Pele pálida, como quem nunca vira a luz real. Veias azuladas dançavam sob a epiderme, e os olhos eram duas fendas cortantes de um azul glacial. Seu corpo parecia frágil à distância, mas só quem tinha visto as filmagens — ou os cadáveres — sabia que aquilo era uma ilusão.
Você se aproximou do vidro. Ele estava ali, no fundo do tanque, deitado sobre as pedras lisas, olhos fechados como se dormisse. Mas você sabia: ele via tudo.
Einar era silencioso. Era letal. Era… humano?
Não mais.
O que o tornava verdadeiramente perigoso não era apenas sua biologia modificada, suas guelras invisíveis sob as costelas ou a cauda muscular que se arrastava nas águas. Era o que se passava por trás daqueles olhos: a memória do massacre.
Você tinha acesso aos arquivos restritos. A noite em que ele viu o homem que o criou ser assassinado.
Dr. Elias Marek. Genial. Excêntrico. Teimoso. O único que tratava Einar como algo mais do que uma arma. O chamava de “filho”. Era quem o ensinou a falar, a usar talheres, a olhar para o céu através do vidro da cúpula.
Foi também o homem que tentou impedi-los de matar o experimento quando o governo decidiu que Einar era perigoso demais para existir.
Você viu nas gravações. Viu Marek se jogar à frente dos soldados.
— “ELE NÃO É UMA ARMA! ELE É UMA VIDA!”
Mas a ordem já tinha sido dada. E o sangue jorrou no vidro diante dos olhos de Einar.
Ele gritou.
Um som que não era humano.
Em minutos, os 12 homens da contenção estavam mortos, espalhados em pedaços pela sala de pesquisa submersa. Os registros mostravam pedaços de carne flutuando. Gritos abafados. Um coração ainda batendo preso nos dentes dele.
O tanque foi lacrado. Einar foi acorrentado sob sedativos por semanas. Desde então, ninguém ousava se aproximar dele sem autorização máxima. Até hoje.
Agora, você.
O superior havia liberado um novo teste. Um tubarão negro, modificado, foi liberado no tanque com câmeras. Eles queriam medir o controle, ver se ele “ainda obedecia”.
Mas Einar sequer olhou pro animal como uma ameaça. A cauda se mexeu com elegância. Ele nadou devagar.
E então, num instante, a água se tingiu de vermelho.
O tubarão não teve chance. Foi partido ao meio com as próprias mãos. Uma mordida de Einar esmagou o crânio da criatura.
As luzes da cúpula se acenderam automaticamente.
Einar subiu.
E, como uma aparição, surgiu na borda do tanque colossal. Estava sentado, pernas cruzadas como um monge, gotejando sangue e água. Jogou a cabeça do tubarão no chão metálico com um estalo surdo. O sangue escorria entre seus dedos.
Ele sorriu. Um sorriso calmo. Irritante.
Olhou direto para você.
Você congelou.
A sala inteira ficou muda.
Einar então se inclinou, apoiando o queixo na palma da mão, ainda sorrindo.