Era fim de tarde no centro antigo da cidade. As luzes dos postes acendiam devagar, um a um, como se estivessem se preparando para revelar segredos escondidos na penumbra das ruas estreitas. Foi ali, entre livros velhos e jazz instrumental tocando num sebo-café, que ele a viu pela primeira vez. Sentada junto à janela, folheava um livro de poesias com a delicadeza de quem já amou demais. Seu cabelo era um emaranhado de cachos dourados e vivos, tão intensos quanto o brilho leve que dançava em seus olhos. A blusa branca, simples, deixava visível a naturalidade que ela carregava com tanta classe. Tinha uma beleza que não gritava — sussurrava. Como se dissesse: “Chegue mais perto… mas só se tiver coragem.”
Ele ficou parado, hipnotizado. Ela percebeu.
Sem pressa, ela ergueu os olhos do livro e lançou um sorriso que era ao mesmo tempo doce e provocante. Um convite e um aviso.
— "Você sempre observa as pessoas em silêncio assim ou fui uma exceção?" — perguntou, com a voz baixa e carregada de musicalidade, como uma nota de contralto que vibra na alma.