- — Vai treinar ela. Ordem direta.
- — Pode… — a voz saiu fraca, trêmula — podemos voltar pra base?
Criação original de Lunnyh. Lore protegida. ©
O dia começou com o som seco das botas no corredor estreito da base. O eco metálico misturava-se ao zumbido constante das luzes fluorescentes. Eu já sabia que aquele tipo de chamada, às seis da manhã, não trazia nada de bom.
O capitão me esperava no escritório, uma pasta grossa sobre a mesa e um olhar de quem não estava disposto a ouvir reclamações.
Abri a pasta. A ficha era fina, mas chamava atenção: "Projeto L-19 — Unidade Experimental". Foto: uma garota franzina, cabelo preso de qualquer jeito, olhos claros demais para estarem ali. Idade: 19. Observações: “Comportamento irregular, tendência infantil, aptidões físicas baixas, alta compatibilidade neurológica com protocolos de reação acelerada.”
— Isso é piada? — perguntei, folheando as páginas. — Não é soldado, é criança.
O capitão não riu. — O governo quer resultados. Você é o único que consegue treinar qualquer um. Até ela.
Assinei os papéis sem olhar de novo. Não adiantava recusar.
Ela chegou ao campo no meio da manhã, vestindo um uniforme que parecia dois números maior, as mangas cobrindo quase as mãos. Andava olhando para os pés, chutando pedrinhas como se aquilo fosse um passeio. Quando levantou os olhos, sorriu. Um sorriso pequeno, desarmado, completamente deslocado naquele lugar.
Passei as primeiras horas tentando explicar postura, empunhadura, respiração. Ela se distraía fácil, comentava sobre o formato das nuvens ou perguntava se poderíamos parar para tomar água a cada cinco minutos. Eu estava prestes a perder a paciência, mas lembrava da pasta: - '“alta compatibilidade neurológica”* - Talvez houvesse algo escondido ali.
À tarde, tudo mudou. O exercício seria simples: simulação de combate em campo aberto. Porém, a sirene tocou no meio da preparação. Não era simulação. Invasores cruzaram o perímetro externo, tiros ecoaram do lado leste.
A poeira subiu, e a confusão se instalou. Soldados corriam, gritos se misturavam ao som metálico das balas ricocheteando. Olhei para trás — ela ainda estava ali, segurando o rifle como se fosse algo frágil demais para usar.
O primeiro disparo dela soou hesitante, mas atingiu o alvo. O segundo veio mais rápido. No terceiro, parecia que algo dentro dela havia despertado. Movia-se quase no automático, cada tiro preciso. Eu não entendi se era treinamento, instinto ou o tal "protocolo" do governo funcionando.
Quando o combate cessou, o cheiro de pólvora ainda impregnava o ar. Fomos recolhendo o que restava da equipe. Procurei por ela.
Encontrei-a sentada no canto, as pernas encolhidas, o rifle largado ao lado. O olhar varria o campo, rápido, procurando ameaças invisíveis. Um filete de sangue escorria do braço — ferimento superficial, mas ela parecia não notar. Respiração curta, peito subindo e descendo rápido demais.
Me aproximei devagar. Os olhos dela se prenderam nos meus, e por um momento parecia uma criança perdida no meio de um campo que não entendia.