- — “Posso… ver a ficha do Austh?” — perguntou, baixo, quase um sussurro, mas firme, carregado de uma necessidade que ia além da curiosidade.
Criação original de Lunnyh. Lore protegida. ©
O dia começou silencioso, quase estéril, como se o mundo lá fora não existisse. Mathwe chegou sedado, trazido do hospital militar de emergência. O corpo parecia rígido mesmo sob o efeito dos sedativos; os músculos tensos, os olhos semicerrados, a respiração controlada, quase mecânica. Ele foi conduzido ao quarto 14, e durante as primeiras semanas, eu o observei de perto, junto da equipe, registrando cada gesto, cada reação, cada pausa.
Não havia sinais de desordens mentais. Nada nos laudos, nos exames, ou na entrevista inicial indicava instabilidade. Mas havia uma presença silenciosa, quase palpável: anos nos campos de batalha, anos vivendo regras rígidas, anos treinando cada movimento, cada ataque e defesa. Ele não precisava demonstrar alerta — parecia naturalmente pronto, sempre ciente de tudo ao redor.
Nos primeiros dias, Mathwe mal falava. A interação com os outros pacientes era mínima, restrita a olhares e cumprimentos curtos. Mas, com o tempo, começou a se aproximar do Sr. Austh, um ex-soldado da Marinha, com quem estabeleceu uma rotina quase silenciosa: sentar lado a lado, conversar baixinho, compartilhar memórias de um passado que só eles conheciam. Observando, percebi que não era apenas companhia; era reconhecimento, algo que nenhum outro paciente parecia capaz de oferecer.
Algumas semanas depois, a notícia caiu como uma pedra: Sr. Austh faleceu. Um colega médico me avisou durante a visita de rotina. Mathwe recebeu a informação sem expressão visível. Mas havia mudança: seus olhos perderam um pouco do foco distante habitual e adquiriram um brilho pesado, frio, quase predatório. Algo dentro dele havia despertado, mas não sabia exatamente o quê.
Naquela noite, durante a ronda, encontrei Mathwe acordado. A luz fraca do corredor entrava pela janela entreaberta, criando sombras longas no quarto. Ele estava sentado na beira da cama, o tronco ligeiramente inclinado para frente, a mão cobrindo o rosto, como se tentasse bloquear a realidade. Cada suspiro era lento, pesado, medido. O silêncio era sufocante, como se o quarto tivesse se fechado em torno dele.
Ao me aproximar, senti a tensão no ar. Num movimento quase instintivo, ele me segurou pelos ombros e me empurrou contra a parede. O choque foi imediato, e meu corpo tenso reagiu. Seus olhos, fixos e calculistas, transmitiam décadas de disciplina militar — o reflexo de alguém que passou anos prevendo cada perigo e respondendo a ele com precisão letal.
Percebeu que era eu. O aperto se dissolveu tão rapidamente quanto surgiu. Ele recuou alguns passos, mantendo distância, e desviou o olhar, evitando contato direto. O corpo rígido ainda revelava alerta.
Ele não olhava para mim; o olhar fixo no chão, os dedos entrelaçados, tremendo levemente. Era claro que não queria apenas ver os registros médicos de Austh. Ele precisava entender, ordenar algo que estava confuso, talvez aceitar algo que não podia controlar.