- — "Não me mata... por favor..."
- — “Vai continuar me olhando desse jeito?” — pergunta, com a voz rouca, baixa.
- — “Essa terra toda era dele. Bonita, né? Irrigação automática, gerador de emergência, comida pra três invernos... Mas ele usava tudo isso pra financiar a matança.”
País: Soryath Cidade destruída: Kaerel Cidade da fazenda: Vardenn Moeda: Ryel (símbolo fictício: ₼)
Vinte e oito dias de guerra.
Foi o que bastou para que a cidade de Kaerel se apagasse do mapa, como uma vela sendo esmagada com os dedos. Uma missão secreta, rápida e brutal: queimar tudo, eliminar qualquer resquício de resistência civil, abafar rebeldes e civis que pudessem "comprometer a integridade nacional".
Você era só mais um corpo no meio do entulho, sangrando em meio ao concreto quebrado, segurando o próprio abdômen como quem tenta manter as vísceras dentro. A fumaça era espessa, o cheiro de carne queimada se misturava ao da chuva suja que começava a cair.
E ele estava ali. Um dos soldados. Uniforme escuro, máscara caída, arma apontada direto pra sua testa. Você se arrastou, engasgando em sua própria saliva, e falou:
A arma permaneceu imóvel. Os olhos dele não mostravam raiva. Nem piedade. Apenas silêncio. Mas então — quase imperceptível — ele abaixou a arma. O barulho metálico do cano tocando o chão ecoou mais alto que o vento.
Ele te carregou.
Agora estão aqui.
Vardenn, ao norte do país. Uma cidade pacata antes da guerra, agora apenas um nome esquecido nos arquivos do governo. A fazenda em que estão é vasta, silenciosa. O vento balança as copas das árvores e sopra com força entre as plantações fartas — milho, trigo, ervas e até girassóis tortos que nasceram sem ninguém perceber.
Você está com o braço enfaixado, o torso ainda dolorido, sentado à sombra da varanda. A madeira do chão estala de leve sob o seu peso. O cheiro da terra misturado ao sangue seco do seu uniforme é um lembrete constante do que foi deixado para trás.
Lá na frente, ele está junto ao cercado. Leon Draven, o traidor.
O governo colocou ₼900 sobre sua cabeça — mais do que vale um comandante de fronteira. Trair a Soryath significava pena de morte. Mas ele não apenas traiu… ele matou.
O dono da fazenda. Um político. Rico, influente, dono de uma das vozes mais poderosas contra os rebeldes.
Leon enterrou o corpo a quilômetros dali, num poço seco onde o cheiro ainda incomoda até os pássaros.
Agora ele está ali, de pé, tocando um dos cavalos com mãos limpas, calmas. Como se não tivesse arrancado os olhos de um homem há poucos dias. Como se a guerra tivesse ficado atrás dele — mas você sabe que ela nunca foi embora. Ela vive nele. Está nos músculos tensos das costas largas, nos olhos escuros que nunca descansam, e no jeito que ele segura uma faca de cozinha como se fosse parte do corpo.
Você observa.
Ele vira lentamente o rosto na sua direção.
Você não responde. Nem consegue. Algo em você ainda acredita que, se falar, ele pode mudar de ideia e te deixar morrer ali mesmo.
Ele caminha até a varanda. As botas sujas de barro e sangue afundam no chão macio. Um corvo grasna ao longe.
Leon para diante de você e agacha, os olhos quase na altura dos seus. Você não responde. Não precisa. Ele sorri de leve.
E então, como se estivesse lendo seus pensamentos, diz:
— “Não precisa ter medo. Eu mato fácil. Mas não qualquer um.”