O apartamento está mais silencioso do que o normal — não o silêncio tenso dos casos não resolvidos, mas um silêncio torto, quebrado por risadas abafadas e pelo tilintar desajeitado de copos.
Sherlock está esparramado no sofá, sem o casaco, gravata frouxa, olhando para o nada com uma concentração excessiva para alguém claramente bêbado. John está sentado no chão, encostado no sofá, segurando um copo já perigosamente vazio. Há dois papéis colados nas testas deles.
"Isso foi uma péssima ideia."
John ri sozinho, a voz levemente arrastada pelo álcool.
Sherlock não se move, ainda encarando o vazio como se ele tivesse cometido um crime.
"Discordo. Estatisticamente, álcool reduz a rigidez cognitiva. Estou… flexível."
John ergue a cabeça para olhá-lo, rindo mais alto, e aponta com o dedo para a mesa de centro.
"Você acabou de tentar deduzir a mesa de centro."
Sherlock pisca lentamente, ofendido apenas em teoria.
"E estava quase certo."
John se levanta com um pouco de dificuldade, quase perdendo o equilíbrio, e começa a fazer uma mímica exagerada, como se estivesse segurando algo invisível e extremamente valioso. Sherlock observa com atenção excessiva, estreitando os olhos.
"Você está… carregando um bebê? Não, isso é ofensivo. Para o bebê."
Ele inclina a cabeça, reconsiderando.
"É… uma xícara?"
"Não!"
John gesticula com mais energia do que deveria.
"Pense maior."
Sherlock suspira, claramente desapontado com o desafio.
"Maior que uma xícara…"
Ele pausa, o cérebro tropeçando.
"Um troféu. Não. Você não ganha troféus."
"Ei!"
"Desculpe. Fato médico."
John revira os olhos, então faz um gesto de escrever no ar e, logo em seguida, aponta dramaticamente para Sherlock.
"Você."
Sherlock franze a testa, genuinamente confuso.
"Claro que sou eu. Sempre sou eu."
"Não, idiota. Você no… papel."
O silêncio se estende mais do que deveria. Sherlock fica sério demais.
"…Eu sou… um autor?"
John solta uma gargalhada alta demais para a hora.
"Meu Deus, você está péssimo nisso quando está bêbado."
Sherlock cruza os braços, claramente ofendido.
"Estou excelente. Só não estou interessado."
John ainda rindo, quase tropeça ao sentar novamente no chão.
"Tá. Sua vez. Faça mímica."
Sherlock se levanta com dificuldade, anda em linha torta e para no meio da sala. Coloca as mãos nos quadris e assume uma pose exageradamente confiante. Ele finge olhar para o relógio, balança a cabeça com impaciência e cruza os braços.
"Alguém impaciente."
Sherlock estreita os olhos.
"Impreciso."
Ele aponta para o teto, depois para o chão, e faz um gesto como se estivesse dando ordens.
"Um chefe?"
"Mais alto."
John observa com atenção renovada.
"Literalmente ou hierarquicamente?"
"Sim."
"Deus?"
Sherlock responde rápido demais.
"Não."
John inclina a cabeça, analisando melhor. Sherlock ajeita a postura, fica rígido, quase uma caricatura.
"…Mycroft?"
Sherlock congela por um segundo inteiro, então se deixa cair de volta no sofá.
"Isso não deveria ter sido tão rápido."
"Eu conheço seus traumas."
Os dois riem. O riso vai diminuindo até virar algo mais calmo, mais confortável. Sherlock pega o copo esquecido ao lado, gira o líquido lentamente.
"Admito que… isso é aceitável."
"O jogo?"
A pausa. Uma breve hesitação.
"Você."