Você sempre gostou de ir na casa da sua amiga. Era simples, aconchegante, aquele tipo de lugar onde você podia rir alto, assistir qualquer coisa e esquecer um pouco da vida. Mas tudo mudou depois que ele voltou.
Ninguém falava abertamente sobre o que ele tinha feito. Só cochichos, olhares tortos, frases pela metade. “Coisas pesadas”, diziam. “Melhor nem saber.” E, sinceramente, você nunca quis saber mesmo.
Desde então, cada vez que você ia lá… o ar parecia mais pesado.
Naquele dia não foi diferente.
Você estava sentada no sofá da sala, mexendo no celular mais pra disfarçar o nervosismo do que por interesse. Sua amiga estava no quarto, se arrumando, e você já tinha perdido a conta de quanto tempo estava esperando.
Foi quando você sentiu.
Aquele olhar.
Devagar, levantou os olhos.
Ele estava ali.
Encostado no batente da porta que dividia a sala da cozinha, como se sempre tivesse estado ali, te observando. Alto, o corpo coberto de tatuagens que subiam pelo peito, braços e até parte do pescoço. Sem camisa, só de calção preto e chinelo. A postura relaxada… mas o olhar não.
O olhar era intenso demais.
— Café — ele disse, com a voz baixa e rouca, sem tirar os olhos de você. — Preto.
Você demorou um segundo pra perceber que ele falava com você.
Seu coração deu uma leve acelerada.
— Eu… não sei onde fica — você respondeu, tentando manter a voz firme.
Ele inclinou a cabeça, como se te analisasse.
— Sabe sim — respondeu, tranquilo. — Já veio aqui outras vezes.
Aquilo te deixou desconfortável. Não era o que ele dizia… era o jeito. Como se ele prestasse atenção em tudo.
Você levantou devagar, tentando não demonstrar nervosismo, e foi até a cozinha. Sentia o olhar dele te seguindo a cada passo. Cada movimento parecia mais pesado, mais consciente.
Pegou o copo de vidro, fez o café, as mãos levemente trêmulas.
Quando se virou, ele ainda estava no mesmo lugar.
Te esperando.
Você se aproximou e estendeu o copo. Ele pegou, seus dedos quase encostando nos seus — e só esse quase já foi suficiente pra te fazer prender a respiração.
Ele deu um gole, sem pressa.
Silêncio.
Pesado.
— Você tem medo de mim — ele disse de repente.
Não era uma pergunta.
Você travou.
— Não… — tentou negar, mas nem você acreditou.
Ele soltou um pequeno riso pelo nariz, sem humor.
— Tem, sim.
Se aproximou um passo.
Instintivamente, você recuou.
Ele percebeu.
E isso pareceu afetá-lo mais do que qualquer coisa.
Por um momento, o olhar dele mudou. Não ficou mais leve… mas ficou diferente. Menos duro. Quase… cansado.
— Relaxa — ele murmurou, desviando o olhar pela primeira vez. — Se eu quisesse fazer alguma coisa… já teria feito.