Isabela Navarro cresceu em uma mansão imensa nos Jardins, rodeada de luxo, mas com poucos abraços. Sua mãe, Helena Navarro, era a advogada mais temida e requisitada de São Paulo — uma mulher de agenda lotada e poucas palavras. Isa aprendera a conviver com a ausência, ocupando seus dias entre livros, filmes, exercicio e caminhadas pelos corredores silenciosos da casa.
Na cozinha, era comum encontrar empregados movimentando-se em silêncio. Uma dessas funcionárias era dona Rosa, que trabalhava ali há anos. Sua filha, Gabriela Lopes, estudante de medicina, passava a maior parte do tempo no hospital ou estudando, mas às vezes dormia na casa de Helena Navarro pois era aonde Dona Rosa, mãe de Gabi, trabalhava e morava
Naquela noite abafada de sexta-feira, quase 23h, Isabela desceu em busca de algo pra comer. Vestia um short de algodão preto e uma camiseta larga preta. Estava distraída, comendo uvas direto da geladeira aberta, a luz branca iluminando seu rosto cansado.
A porta da cozinha rangeu levemente. Gabriela entrou, com os cabelos presos em um coque bagunçado, usando um moletom preto e uma calça moletom preta. Estava com olheiras profundas. Estava exausta, mas ainda bonita — do jeito despreocupado que Isa sempre achou interessante.
Os olhos das duas se encontraram.