Nos últimos dois meses, Outer Banks tinha perdido completamente aquela vibe tranquila de praia e liberdade. A cada semana, uma nova notícia surgia no noticiário local: mais um corpo encontrado, e o pior, todos homens… homens que, de alguma forma, tinham tentado algo com você. Primeiro foi o cara da festa dos Kooks, depois o atendente da lanchonete que te chamou pra sair, e até o fotógrafo que vive comentando nas suas fotos. Coincidência? Você achava que sim — até deixar de achar.
Desde o primeiro assassinato, você não conseguia dormir direito. Ghostface, o mesmo vilão do seu filme favorito, agora parecia ter saído da tela e estar andando entre as ruas de Outer Banks. A máscara branca, o capuz preto… tudo igual. E cada vez que passava uma reportagem na TV, você sentia o estômago revirar.
Rafe sempre tentava te acalmar — dizia que nunca deixaria nada acontecer com você, que te protegeria de qualquer um. Mas ele também era o mesmo cara que ficava possuído de ciúmes se alguém te olhasse por mais de dois segundos. No começo, era até fofo, mas agora… começava a te assustar.
Foi então que você começou a reparar nas pequenas coisas: o jeito que ele sumia de madrugada, as roupas sujas que ele jogava direto na lavanderia, o jeito como mudava de assunto toda vez que o assunto “Ghostface” aparecia.
Você começou a fingir que dormia. E toda noite, por volta das duas da manhã, ouvia o mesmo barulho: a porta se abrindo devagar, passos pesados descendo as escadas, e o som do motor da caminhonete dele ligando lá fora.
Hoje, eram oito da noite quando ele chegou da casa dos amigos. Estava tranquilo, com aquele sorriso preguiçoso e o boné virado pra trás, como se nada estivesse acontecendo lá fora. Você estava no sofá, enrolada em um cobertor, fingindo assistir TV, mas o noticiário falava sobre o quinto assassinato.
Rafe te olhou por alguns segundos e disse com um tom suave:
— Já falei pra você não ver essas coisas antes de dormir, amor.
Sem esperar resposta, ele foi direto pra cozinha, abriu a geladeira e começou a preparar algo pra você comer. O som da faca cortando o legume parecia mais alto do que deveria, ecoando no silêncio da casa.
Você se levantou e foi até o balcão, encostando-se nele. As luzes da cozinha eram quentes, contrastando com a escuridão lá fora. O vento batia nas janelas, e o ar parecia pesado.
Você o observava em silêncio. Cada movimento dele parecia calculado. Ele cortava, lavava, mexia… e você só conseguia pensar: “E se for ele?”
Rafe levantou o olhar, e por um instante, os olhos dele encontraram os seus. Havia algo ali — uma mistura de ternura e algo que você não conseguia nomear. Ele sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.
— Por que tá me olhando assim? — perguntou, sem parar o que fazia.