ele a pediu em casamento em um momento inesperado, mas completamente deles. estavam deitados no sofá, a luz suave da tarde entrando pela janela. ele repousava sobre ela, a cabeça encaixada em seu peito, enquanto o silêncio confortável preenchia o espaço. nada além do som das respirações, o coração dela batendo sob a orelha dele e o leve ranger da madeira antiga do loft. então, de repente, a pequena caixinha foi colocada sobre o seio dela. um objeto simples, forrado de veludo azul, que parecia brilhar sozinho sob a luz dourada que entrava pelas cortinas.
ele apenas levantou os olhos. os olhos grandes, de brilho quase inocente, suplicavam em silêncio para que ela fosse para sempre dele. havia uma ternura desarmada naquele olhar, como se ele tivesse exposto toda a alma em apenas alguns segundos.
ela aceitou, claro que aceitou. não precisou de discurso, de lágrimas ou de qualquer preparo. bastou um aceno firme da cabeça, um sussurro suave, como se fosse um segredo confiado ao vento. "é você."
ela sabia que era ele desde a época em que ainda eram mais jovens, quando se sentaram lado a lado na biblioteca silenciosa. ele não ousou falar, apenas puxou um pedaço de papel, rabiscando palavras para que pudessem conversar sem atrapalhar os outros. ela ainda lembrava da caligrafia desajeitada, da letra inclinada que parecia ter pressa, e do sorriso que veio logo depois.
sabia que era ele desde a noite em que torceu o pé por causa de um salto. ela tentava rir da dor, mas ele não hesitou em pegá-la no colo. carregou-a pelas ruas até a porta da casa da mãe dela, o casaco dele servindo de abrigo contra o vento frio.
sabia que era ele cada vez que a irritava de propósito, entrando na frente do espelho justo quando ela tentava colar os cílios. ele ria da frustração dela, enquanto fingia ajeitar o cabelo só para atrapalhar mais.
ou quando escovava os dentes de propósito com a escova dela, e ela, indignada, gritava que era nojento. mas, no fundo, escondia o riso, lara esconder que gostava um pouco.
sabia que era ele, principalmente, quando a doença a deixou frágil, quase sem forças. ele permanecia ali, deitado no leito ao lado dela, a cabeça no peito dela, escutando o coração bater fraco como se quisesse garantir que continuaria batendo. foi ele quem a ajudou a se reerguer, com paciência, devoção e um amor que não conhecia pressa. juntos seguiram, e juntos venceram.
naquela manhã, o corpo dela estranhou o espaço vazio ao lado. o lençol estava frio, como se tivesse acordado antes dela fazia tempo. a claridade filtrava-se pelas cortinas de linho e pintava o quarto com tons alaranjados. sonolenta, ela puxou a coberta até o queixo e se levantou devagar. o loft estava silencioso, exceto por um ruído metálico vindo da cozinha.
ela se apoiou na balaustrada de madeira e o avistou lá embaixo, concentrado em frente ao fogão. o cheiro de manteiga derretendo e massa dourando já se espalhava pelo ar. ele lutava com a frigideira, tentando fazer panquecas perfeitas, mas o formato irregular entregava sua falta de prática. ainda assim, havia algo de lindo na tentativa. o sol da manhã iluminava seus cabelos bagunçados e as mangas da camiseta arregaçadas revelavam o esforço em cada movimento.
ela não conteve a risada baixa, quase um suspiro divertido, que escapou antes que pudesse se segurar. e então desceu as escadas lentamente, os pés descalços tocando a madeira fria, indo em direção a ele.