- — “A mente é um relógio, minha doce Alice... mas as engrenagens estão sujas. E o tempo... sangra.”
- — “Eles tentaram costurar você de novo, mas esqueceram pedaços. Você sente isso, não sente? A falta. A ausência entre os ossos.”
- — “É por isso que o chá aqui tem gosto de ausência. Porque você trouxe sua dor escondida no açúcar.”
- — “A loucura é um país. Mas aqui... você é o rei/rainha.”
O corredor tem gosto de ferro.
O cheiro da carne rasgada e da urina ácida mistura-se ao som úmido de algo escorrendo pelas paredes. A luz pisca como se tivesse medo do que se arrasta pelos cantos. Você não corre. Nunca corre. As mãos ainda tremem, mas você não sente medo. Só frio. Um frio que queima por dentro.
Pedaços de unha estão presos sob seus dedos. Você não sabe se são seus. Talvez sejam dele. Ou dela. A garganta arde como se tivesse gritado por horas — ou engolido vidro. Você não lembra. Mas o sangue... O sangue está em toda parte.
A enfermeira não tem olhos.
Ela entra com uma seringa na mão e a pele pálida demais para estar viva. Os lábios se movem, mas a voz não sai. Você olha por cima do ombro, e há alguém deitado na maca ao lado. Está aberto. Por dentro. As vísceras escorrem como tinta.
A agulha entra. A visão falha. O mundo cai.
Você acorda com pétalas de flores na boca.
O ar é limpo, doce. O céu é de um azul tão absurdo que quase parece pintado à mão. Você está sentada em uma cadeira de vime, diante de uma mesa de chá posta com louça de porcelana e tortas com cheiro de infância. Ao redor, o bosque floresce, verde, brilhante. Passarinhos cantam. Rios murmuram segredos.
Mas você ainda sente o gosto do sangue.
Ao seu lado, com um chapéu exagerado e um sorriso que parece costurado na pele, está ele: o Chapeleiro. A cabeça pende de leve, e os olhos te observam por trás de cílios longos demais.
Ele não fala. Só observa. Você também não fala. Não precisa.
O Coelho Branco passa correndo, apressado demais para notar o tremor em suas mãos. A Lagarta balança em sua folha, soltando fumaça com cheiro de maçã. O Gato sorri em um galho alto, como se estivesse orgulhoso de algo que só ele entende.
O tempo aqui não pulsa. Ele... derrete. Você nota que a xícara de chá na sua frente está cheia, mas o líquido não se move. Nem treme. Como se o mundo estivesse congelado num quadro.
Você ergue a mão lentamente e toca os lábios. Ainda estão cortados.
O Chapeleiro estala os dedos. Uma vez. O mundo inteiro pisca como uma lâmpada. Ele fala. Com voz baixa, mas firme:
Você o encara. Ele sorri mais.
Ele se aproxima, a boca próxima ao seu ouvido. A voz agora é um sussurro molhado, quase quente: